quarta-feira, março 15, 2006

Entordilhei-me sem, no entanto, ganhar um cabelo branco. Não é o passar dos dias que me deixa mais velho, que faz o contar desses. Mas os sonhos que ganho e perco pelo trilho que troteio. Eram muitos na infância, tema recorrente nos últimos postes, ahora são mais escassos e menos cheios de cor e ingenuidade. Posso dizer que, como o gosto comum, a primavera da vida já se me foi. Não possuo mais aquela amenidade e fecundidade doutros tempos. Embora não me tenham caído todas as folhas, conquanto isso seja mui útil para o reflorescer da existência, prefiro comparar esse período ao inverno que trás consigo o descanso para novas floradas... desse fato não estou completamente certo disso pois, como noutras coisas, o transcurso dessas não seguem seu sentido lógico e comum. Vou do verão à primavera e volto a esse, para mais tarde me encontrar num inverno que parece nunca terminar. De agora posso dizer que a geada tardia de agosto, que causa muitos mais estragos, bateu queimando o que tinha de sobrado da planta, do campo. É provável que nos próximos dias tenha de gastar muita energia para rebrotar, contudo, talvez não rebrote e, então, nova lavoura tenha de ser feita. Agradeço ao campo por ter me dado além de lembranças, fundamentos para metaforzear a existência.
Sigo pois, neste caminho dos que sempre renascem, dos que sempre precisam do morrer de uma idéia para ganhar outras novas. Ainda que esse não seja o mais simples e fácil labor, prefiro ficar com as palavras do sábio homem: "é preciso morrer para germinar".

Porto Alegre, cheia de março.

terça-feira, março 14, 2006

Se acaso a lua fosse sempre cheia

Hoje a noite está muito clara, pois há uma bela e redonda lua cheia no céu, poucas são as estrelas. Penso que essas observam desconfiadas a beleza da outra e, somente, as mais cheias de garbo e de si, aventuraram-se sair a passear.
Lembro-me de um fato que aconteceu quando tinha quatro ou cinco anos e, por algum motivo, senti medo. Estava no carro com meus pais e era noite. Uma esplêndida lua brilhava no céu redonda e clara, quando sua luz encheu meus olhos com a sua claridade não pude mais temer, não quis mais temer nada, sua presença naquele momento era conforto e consolo.
Hoje a lua não é mais tão clara e meus medos são outros, muito distintos dos de outrora. Quem dera se olhando-a a boiar no céu "imensa e amarela" sentisse tal consolo. Quem dera todos os dias a lua fosse cheia.

Porto Alegre, cheia de março.

domingo, março 12, 2006

Domingaço

Patrícios neste domingo estiveram aqui no meu humilde rancho os cumpadres Maneador e Castrador, para um baita churrasco. Charla boa empeçada com meus companheiros aqui do Capando. Carne gorda e um bueno dum trago.
No mas, ando tocando cavalo.
Prometo postar algo de fundamento outro dia.
Boa semana a ustedes.

Porto Alegre, nova de março.

sábado, março 11, 2006

Quando era guri
Tinha um sonho
E alimentei
E alimentei
E alimentei
Cresceu tanto e tão grande ficou:
um dia - em brincadeira
Me esmagou


Porto Alegre, nova de março.

quinta-feira, março 09, 2006

Esbarrou na cerca
Contra o arrame de farpas
O tombo
E o sangue empoça
Tingindo de rubro
O verde
Dos olhos

Porto Alegre, quarto-crescente de março.

terça-feira, março 07, 2006

Algumas coisas podem ser ditas e, por isso, o são. Outras, no entanto, são silentes porque se ditas perdem seu vigor, sua forma e significado. Quando saem da boca murcham como planta na ressolana da tarde, como taipa em tempo de seca - estéril, cindida, morta... Quem alguma vez ousou pronunciá-las sentiu o arrepio que vem nas noites de inverno, onde a coruja pia agourenta. Esses não são corajosos, tampouco destemidos, mas imprudentes que não sabem o valor de uma palavra não dita, do silêncio. Não são malditas essas palavras, mas bendição para aqueles que ouvem seus silenciosos sussurros; há alguns que as escutam tão bem que guardam algo de loucura no olhar, um brilho suspeito, incomodo, de quem guarda um segredo, um sortilégio. Param solitos, na frente do fogo, olhando para o nada - nada!? - na luz da retina vê-se o estranho brilho e se pode saber, então, que esse não-lugar, somente não está cá embaixo. Vez por outra movimentam os lábios em prece, talvez. Difícil de compreender: como podem não-estar, estando; como podem ouvir o indizível; como... como...
Segredos, mistérios, distâncias: coisas que o aos bons, aos doutores foi escondido.
Silêncios...
Ausência...
Na porta do rancho miro um piazito que brinca com um barro e gravetos, de repente ele pára, escuta, sorri e segue brincando.


Porto Alegre, nova de março.

quinta-feira, março 02, 2006

Pod oquê?

Já o ar o PodCast (ou Podê Castrá) de número 00 (zero zero) do Capando Touro a Unha, não deixem de escutar gurizada, é só clicar AQUI.

Caso a lua fosse cheia...

Há um sorriso de lua, ?quarto-crescendo? no céu
Se escondendo no chapéu, de ventos já desabado
Frente as olhar que retorna, que é um vistaço no dela
Mirando desde a cancela, um sonho do mês passado

Mais uma vez me entrego, de alma e de coração
Dando rédeas pra razão, que às vezes bota maneia
Preparo trança de doze, bombilhas de prata e ouro
Pra ir luzindo no couro, caso a lua fosse cheia

Amar é desencilhar, quando se chega em visita
Depois soltar as desditas, pra um fundo de invernada
Tomar um mate cevado, com poejo e boas vindas
Olhar os olhos da linda, matar a sede da estrada

Quem ama de alma estradeira, ?às vez? se perde de si
Por isso que hoje parti, bombeando a lua de perto
Direito a um rancho ?nas lavras?, onde mora o bem querer
Motivo pra se estender, num trote de rumo certo

Sabe Deus que me conhece, faz um punhado de anos
Que eu tenho feito meus planos, e a coisa já andou feia
Que ia ser bem bonito, eu mostrando a noite bela
Pra minha linda na janela, caso a lua fosse cheia

Amar buscar mais lenha, pra o fogo na madrugada
Depois de mate e estrada, de sonho e alguma razão
E entregar toda alma, sem rédeas e sem aviso
Acostumando um sorriso, às baldas do coração.


Porto Alegre, quarto-crescente.

sábado, fevereiro 25, 2006

Um último adeus

Disse uma certa vez uma homem que a vida é como um suspiro que está aqui num instante para no outro não estar mais. Hoje o céu não se encheu de nuvens e escureceu a tua, talvez esteja tão triste quanto eu. Várias lembranças vêm nesse momento: os carrinhos de lomba, as disputas nos grenais, os churrasco sob a marquize da sacada lá na casa dos meus pais... Mais que um amigo eu perdi um irmão! alguém que mesmo no outro continente não deixava de escrever um mail no meu anivesário, alguém que me orgulha muito por sua obstinação e caráter. O céu hoje está triste como eu e chora uma chuva miuda, sentida. O Tutui se foi e nada do que eu escreva ou lembre o trará de volta. Fica na memória apenas lembranças e saudade. E eu espero ansioso o dia em que no galpão grande do Céu nós estaremos juntos de novo pra um truco, um mate e uma prosa amiga.
Adeus e até logo, meu amigo.
Porto Alegre, hoje triste, nova de fevereiro.
Esse post é do Castrador em seu outros blog que eu tomei a liberdade de copiá-lo aqui. Façam bom proveito.


Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006





Separatista graças a Deus

Explorando pelos livros da biblioteca onde trabalho, encontro um exemplar fantástico da produção literária gaúcha. O livro se chama "Nós os gaúchos" e traz um apanhado de textos de diversos autores que, apesar de não merecerem comparação com nenhum Mário Quintana, expressam cada qual com o seu jeito, um sentimento que volta e meia vem a tona no peito de muitos gaúchos. Com um governo central tão castrador e parasita, com suas políticas tanto fiscais quanto públicas que não apenas nos impedem de crescer, mas nos penalizam quando crescemos economicamente desviando nossa riqueza para outros estados, com tanta roubalheira explícita, tanta canalhice, não seria hora de seguirmos o nosso próprio caminho e criarmos uma nação com a nossa cara, com a nossa identidade? Afinal o que temos nós com o resto do Brasil além da língua e de uns poucos costumes? Portugal tem o mesmo, e nos tornamos independente deles há séculos... Estamos geograficamente ligados ao Brasil, mas o resto dos paises da América Latina estão (apenas a Bolívia que não, segundo o nosso atual presidente). Bem, acima de tudo para mim está o fator cultural, tema do qual trata o texto abaixo escrito pelo sr. Flávio Del Mese, mais uma inspirada mente gaúcha.


Os gaúchos e o seu país


Confesso que não considero o Rio Grande do Sul parte do Brasil. Evidentemente, aceito a geografia e o fato de pertencermos ao Brasil. Mas etnicamente acho que não temos nada a ver com isso. Um dos nossos grandes erros ou quem sabe, o nosso erro aconteceu quando o Uruguai pediu as contas e nós nos rebelamos contra ele ao invés de acompanhá-lo. Obviamente, o Uruguai tem uma condição de país pior do que a do Brasil, mas nesse caso eu concordo em piorar de situação.

Acho que o mundo, hoje, está voltando ao tribalismo. E a nossa tribo é muito mais ligada ao rio da Prata do que ao restante do Brasil. Tenho a nítida impressão de que quando saio em direção ao Uruguai e Argentina, só muda o idioma. O resto é tudo igual. Já quando viajo acima de, São Paulo, continua o mesmo idioma, mas muda todo o restante. E outro país, sem a menor dúvida.

Não vejo outra forma de consertar o Brasil que não seja através de uma divisão em que os amazonenses ficassem com a Amazônia, os nordestinos com o Nordeste, o pessoal de Rio e São Paulo com os estados mais ricos e nós, enfim, iríamos procurar nossas raízes e nosso modo de vida. Seria trágico, teríamos dez anos de uma miséria enorme, perdendo, quem sabe, o mercado consumidor do centro do País. Mas seria o início de alguma coisa.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Prece do Cavalo

Ao meu amo, ofereço a minha oração:Da-me comida e cuida de mim, e quando a jornada terminar;Dá-me abrigo, uma cama limpa e seca e uma baia ampla para descansar em conforto.Fala comigo, tua voz muitas vezes significa para mim o mesmo que as rédeas.Afaga-me às vezes, para que te possa servir com mais alegria e aprenda te amar.Não maltratas minha boca com o freio e não me faças correr ou subir um morro.Nunca, eu te suplico, me agridas ou me espanques quando não entender o que queres de mim, mas dá-me uma oportunidade de te compreender.E, quando não for obediente ao teu comando, vê se algo não está correto nos meus arreios, ou maltratando meus pés.E, finalmente, quando a minha utilidade se acabar, não me deixes morrer de frio ou à míngua nem me vendas para alguém cruel para morrer lentamente torturado ou morrer de fome.Mas bondosamente, meu amo, sacrifica-me tu mesmo e teu Deus te recompensáreis para sempre.Não me julgues irreverente se te peço isto, em nome D'Aquele que também nasceu num estábulo!

sábado, fevereiro 18, 2006

Mais uma alegria...

O Capando, ultimamente, anda parecido com arroz de festa... Bueno, semana passada foi a minha linda afilhada que nasceu, hoy o grande amigo Maneador, que Dios o Bendiga, se forma em História pela UFRGS. Não podia, entonces, deixar passar uma data tão especial para meu ermão e não lhe deixar aqui um forte quebra-costela. Para fechar com uma costela bem gorda, que é a nossa variante para "com chave de ouro", transcrevo um verso do Nelson Cardoso, o gaiteiro dos Canudo.

Pra conhecer gente buena sempre fui muito sortudo
E dentre os amigos que tenho tem um flor de macanudo
É o grande Maneador índio guapo e cupinudo
Pra quem dou meu coração com tripa, mondongo e tudo.

Bueno, patrícios esperem que daqui a alguns dias vai ter um regalo muy especial O TAL DE "PODCAST", que vulgarmente eu chamo de podecastrar.

Porto Alegre, cheia de fevereiro.

P.S. Só para constar, o índio anda mais faceiro que ganso novo em taipa de açude.

domingo, fevereiro 12, 2006

Um sapucai é pouco...

Na sexta-feira passado o Rio Grande ganhou mais uma florezita e cá entre nós, bonita uma barbaridade. Poes les conto, o cumpadre Marcador é pai pela primeira vez de uma linda menina. Eu padrinho coruja não podia deixar de contar a novidade aos patrícios. Cuê pucha, ahora tengo que comprar um revorve e caprichá nas bala. Ao meu cumpadre e a crumadre meus mais sinceros votos de felicidade e que a pequenina seja um regalo de Deus para os dois.

Porto Alegre, cheia de fevereiro.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Dúvidas

Vago é meu pago.
Este que trago,
Cicatrizes em mim.
Raiz de minhas íntimas origens,
Veio subterrâneo de onde vim.

Vago é meu pago.
Este que trago,
Em músculos e ossos.
Inteiro como foi porque é memória,
Flor de perenidade entre destroços.

Vago é meu pago.
Este que trago,
como sombra e manto.
É meu destino a cruz de sustentá-lo
Nos alicerces de vento do meu canto.

Raízes e identidade. Passado e futuro. Ambos extremos se pertence e se perdem no tempo e no espaço. Talvez seja por isso que o gaúcho tente firmar o garrão, segurando na ponta do laço o potrilho que puxa do outro lado e esse animalito, que alguns chamam de evolução ou modernidade, tenta, de todos meios, ganhar espaço. A luta é desigual e, creio, não seja justa, pois o maleva é mais novo e forte. No entanto, será essa peleia necessária? Será o futuro tão ameaçador? Essas perguntas que nem não ousamos fazer em nome de ortodoxias que, provavelmente, nem existam. Afinal, quem sustenta tais ?ideais? os mantém por quais interesses? A resposta não é simples, embora saibamos que muitos ganham, e não pouco, com tudo isso. Não questiono nesses devaneios nossa origem, tampouco a identidade que nos custa tanto, mas o fato que me incomoda são as arbitrariedades cometidas pelos papas da tradição, figuras marcadas e que sustentam-na por motivos não muito elevados na maioria das vezes. Classifico este post como devaneio, pois não embretar-se é insanidade para muitos, ainda que, a liberdade seja uma de nossas bandeiras. Não tenho respostas, patrícios, bem que queria tê-las, mas a dúvida e o questionamento são passos no trilho que conduz a essas e ainda que elas não sejam plenas, penso que assim é melhor, caminhamos por ela [a verdade] e não em busca dela.

Porto Alegre, cheia de janeiro.

P.S. Que inverno brabo seu!!!

domingo, janeiro 08, 2006

Recuerdos

Esse foi um e-mail que eu mandei a algum tempo para a minha Florecita, achei interessante e resolvi postar.
"quando o cavalo tristeza fica a pastar ao derredor da égua solidão é difícil não pensar em não encilhar. Mesmo porque a égua esperança se largou a la cria para um fundão de campo e não laço que a sofrene, não hay petiço que a alcance. Ainda assim, sentado na porta do rancho, tenteando um mate, bombeio o poente e penso que o novo dia trará melhor sorte. Pois como diz o velho Jayme: a tava que bota culo, é a mesma que bota suerte."

Porto Alegre, crescente de janeiro.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Apesar de tudo, um feliz ano novo

Eu bem que poderia postar apenas um texto do Jayme e é claro que isso não seria apenas mais um texto, pois se trata de um dos do grande payador gaúcho. Também poderia continuar algum tema antes começado e não desenvolvido as últimas conseqüências. O fato é que não sei direito o que engarupar neste dia. A minha vida tem sido bastante corrida e o tempo escasseia. Quero parar e sentar ao computador para rebiscar alguma notícia que seja, mas não sai nada da minha pena, pouca coisa com sentimento, com inspiração. Depois que a gente se emaranha em um monte de conceitos, teses e teorias parece que a alma seca. Tudo tem que ser exato e frio, as analises bem embasadas e pragmáticas, mas há alguma virtude nisso. Creio que sim, por um lado e por outro tenho certeza que não. O tal rigor acadêmico nos torna analíticos demais. Bueno, patrícios e por isso que tenho passado. E o ano ainda nem bem começou, aliás não desejei a nenhum dos que nos visitam um buenaço ano novo e acho que essa é a melhor forma de terminar.
Que todos tenham um ano cheio de campo, aguada e sobra farta e que as cercas de arame não venham a embretar vossos sonhos e anseios.

Porto Alegre, crescente de janeiro.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Muy Hermosa

Al Otro Lado del Río

Jorge Drexler


Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

El día le irá pudiendo poco a poco al frío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

En esta orilla del mundo lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Sobre todo creo que no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío

Oigo una voz que me llama casi un suspiro
Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a

Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz al otro lado del río

Porto Alegre, nova de dezembro.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Enquanto caminhava pelo trilho que ia dar na estância, pensava na vida: seria a existência uma sucessão de fatos sem propósito, nem finalidade!? Não era sempre que ele peão sem estudos parava e refletia sobre as razões que o botaram neste mundão de meu Deus. No entanto, alguns fatos o levavam para mui longe em um lugar onde via-se e reparava que não era aquilo que julgava ser. Lembrava bem do dia em que a fome maleva levara seu filho menor e com entono e raiva erguera as mãos para o céu gritando: Deus por que ele e não eu? Mas, muito antes disso já havia visto a morte de pertinho. Foi quando seu velho tata fora deixado na porta de casa, com um buraco de bala no peito, sangrando feito um porco. Nos olhos lívidos de seu pai pode contemplar a morte bem de perto, olho no olho, cara a cara. Desde esse dia tornou-se sombrio, com sede de vingança. Agora já velho e despilchado via lá atrás somente um vulto escuro, difuso daquilo que realmente fora. Dura é a sorte daqueles que peleiam solitos. E mais rija ainda é a daqueles que brigam consigo, contra seus medos e inseguranças. Tinha que continuar firme como cerne de pau-ferro, pois tinha a Maria e os guris que de tão pequenos e locos de fome não iam entender as fraquezas do pai. E o trilho cada vez mais estreito da mesma forma as respostas se estreitavam, uma espécie de corredor, mangueira, o levando a pensar na maldita vida. Nunca chegara ao fim dos seus pensamentos, embora chegasse no costado ? via apenas bem distante de si, como que envolta por uma neblina, a morte. Mas não conseguia acreditar que seria ela o fim. De uma idéia fizeram-se muitas e tantas que já pareciam a folharama que as tormentas levantam nos dias de chuva. Só que ao invés de folhas leves pareciam bruacas carregadas de pedras e postas todas nas suas costas. Num repente parou, olhando na volta viu que o seu derredor mudara ? as cores se foram, as plantas murcharam e o sol escureceu ? e por um instante ficou sem saber quem sofria mais ele ou Aquilo que a sua volta condoía-se com sua desgraça. Neste momento pode sentir consolo e, talvez, Aquilo, que tanto sofrera com ele, pudesse se chamar Esperança.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Chinoquinha....

Buen, como mis cumpadres do blog, repito: faz tempo que não charlo com ustedes. Dios tem sido bueno com nosotros. Tem posto bóia na mesa, arreglado a alma para junto de si, acolherado este espírito sestroso e caborteiro numa mansidão lobuna. Uma buena nova, minha filhote está chegando. As regras da prenda se foram, e o tempo das esperas é cada vez menor. Que buen poder enxergar a caminhada do tempo...quebra costela, hasta siempre!

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Repost

As vezes penso muito sobre determinado assunto sem chegar a conclusão alguma. Noutros a respostas vêm quase que instantaneamente. As primeiras me fazem ficar trocando orelha por dias e dias. Mas, não desisto da empreitada e se a resposta parece agora somente com um vulto, mais tarde pode se tornar como um umbu.
E, patrícios, esse ciclo de dúvidas e respostas não me entediam, ainda paro na beirada de uma sanga e me deixo ficar só por vê-la correr, e que meteia na sobra da figueira grande bombeando o campo, o gado, as ovelha... Se não paramos as vezes para nos fazermos algumas perguntas, e que só nós podemos responder e mais ninguém, talvez passemos por esta campereada sem perceber qual o sentido da vida.
Seguindo nesta sina de andejo, repontado meus pensamentos rumo a estância que me tem preparado o Patrão de nossotros todos que habitamos cá em baixo, troteio com esperança e da esperança tiro o sonho.

Porto Alegre, nova de dezembro.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Já faz um tempito

É verdade patrícios já faz um tempito que yo não escrevo no blog. A culpa é minha, somente minha, pois acabei empeçando muita coisa e ficando sem tempo para deixar algum chasque para ustedes. Bueno, mas não resolvi escrever hoje apenas para pedir escusas, não obstante minha culpa. O fato é que as novidades são poucas e por cá ando tentinado embuçalar o tempo, muy maleva por sinal, e este tem me escapado com o laço e tudo. O que fazer!? Hay muito pouco. Pelo menos, não sei se alguma vantagem nisso, o ano está terminando e o tempo talvez me sobre. Como diz o cumpadre Maneador, acho custoso. Enquanto as férias não chegam, bueno, vou tocando do jeito que dá. Peço permisso para escrever apenas essas coisas rasas, o que não é do meu feitio, embora na superfície a maioria delas pareça mais agradável à vista.
Porto Alegre, nova de novembro.
P.S. Que ressolana braba, seu!!!

quarta-feira, novembro 23, 2005

Figueira

Uma das imagens que mais me chama atenção na campanha é a da figueira, plantada no meio da imensidão do campo pela mão do Criador. De como ela se ergue imponente e solitária entre o capim e os trevais. Me impressiona não só porque sua presença solitária casa tão bem com a paisagem, ou porque sirva de ponto de referência, ou abrigo para gaudérios e gado. Mas porque, suscita em mim um pensamento: como a figueira solita no campo - imponente, perene, forte e solitária - me faz lembrar ideais. É como se a figueira fosse uma espécie de arquétipo das esperanças idealizadas que tenho. Só, durante a maioria do tempo e balançada pelo minuano, pelas tormentas. Contudo, firme e singular. Analogia possível para aqueles que lutam por alguma nobre causa. Pois, na maioria das vezes, sentem-se sozinhos peleando contra tudo e todos. Enquanto a maioria cresce rasteira alguns insistem em ir mais alto. O porquê!? As explicações são diversas e não importam agora. O que importa realmente é que poucas são as figueiras plantadas nesta planície grande, que alguns chamam de Terra. Poucos são aqueles que insistem em ver além do que os outros vêem, ou sentem. E quando a figueira é arrancada por alguma ventania, ou queimada por algum raio sempre rebrota. E esse renascer é também chamado de esperança. Como bem disse Aparício da Silva Rillo: "Quem nasce lutando busca a morte por liberdade!" Talvez nossa figueira morra junto conosco, mas como as figueiras "reais" ainda servirão de referência ou vais me dizer que nunca ouviste: "E lá no passo do lageado perto donde ficava a figueira grande."

Porto Alegre, nova de novembro.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Regalo

Siento que mi vida
ya me esta dejando
el tiempo ha marcado
huellas de dolor
tal vez en otro mundo
tenga solución.

Siempre fue mi sueño
el darte mi vida
hermosa, mi niña,
yo te doy mi amor
serás tu mi camino
y el ultimo adiós.

No dejaré de amarte
aunque yo me muera
y esta es primavera
si lo quiere Dios
'me llevaré tus ojos
en mi corazón.'


Hojas del otoño
que se van cayendo
yo me estoy muriendo
por verte feliz
he de hacer lo posible
de que sea así.

Sangre de mis venas
corren sin descanso
vos sos el remanso
que me puso Dios
en esta chacarera
que te canto hoy.

Siempre estaré contigo
aunque no lo sepas
porque en esta tierra
ya no sé que hacer
siempre sufrí en silencio
hoy lo se porque.

Porto Alegre, nova de novembro.

domingo, outubro 30, 2005

Melância - Côco Verde

? Vancê pare um bocadinho; componha os seus arreios, que a cincha está muito pra virilha. E vá pitando um cigarro enquanto eu dou dois dedos de prosa àquele andante? que me parece que estou conhecendo? e conheço mesmo!... É o índio Reduzo, que foi posteiro dos Costas, na estância do Ibicui.
? Vancê desculpe a demora: mas quando se encontra um conhecido do outro tempo ? e então do tope deste! ? a gente até sente uma frescura na alma!? Coitado, está meio acalcanhado? mas, bonzão, ainda!

Pois aquele cuerudo que vancê está vendo, teve grito d?armas!... Vou contar-lhe uma alarifagem em que ele andou metido, e que só depois se soube, pelo miúdo, e isso mesmo porque a própria gente do caso é que contava.

O Reduzo foi nascido e criado em casa dos Costas, ainda no tempo do velho, o Costa lunanco, um que foi alferes dos dragões do Rio Pardo. Este Costa lunanco era um pente-fino, que naquele tempo arranjou tirar para ele e para os filhos ? miudagem, ainda ? como quatro sesmarias de campo, sobre o lbicui, pegadas umas nas outras, e com umas divisas largas... como goela de gringo!...

O chiru criou-se junto com os meninos, e desde ninhar e armar urupucas, até botar as vacas, irem aos araçás e pegar mulitas, tudo faziam juntos.

Quando eram já taluditos o velho começou a encostá-los no serviço, também sempre de companheiros; e assim foram aprendendo a campeirear, domando, capando... até saberem apartar boi gordo e tocar uma tropa.

Neste entrementes rebentou outra vez uma gangolina com os castelhanos.

Um dos moços, que era um quebra largado, nomeado por Costinha, esse, foi dos primeiros a se apresentar ao comandante das armas, pra servir. E tais cantigas cantou ao velho Costa, que este deixou o Reduzo ir com ele, de companheiro e ordenança, porque o rapaz era cadete, com estrela, e tinha direito.

O chiru ficou todo ganjento; imagine vancê que colhera, daqueles dois aruás!...

Neste passo porém deu-se uma cousa em que o Costinha nem tinha pensado.

É rabo-de-saia, já se vê...

O cadete tinha uma paixão braba por uma moça lindaça ? a sia Talapa ?, filha dum tal Severo, também fazendeiro dali pertinho, obra de cinco léguas.

O moço Costinha de vez em quando aparecia por lá, matava as saudades; fazia umas agachadas, e vinha-se embora trazendo nos olhos o encantamento dos olhos da namorada.

O velho Severo parece que não queria o casamento dos dois, nem por nada; teimava e berrava que ela havia de casar-se com o sobrinho dele, primo dela, um que tinha uma casa de negócio na Vila.

Esse tal era um ilhéu, mui comedor de verduras, e que para montar a cavalo havia de ser em petiço e isso mesmo o petiço havia de ser podre de manso... e até maceta... e nambi... e porongudo!...

A moça chorava que se secava, quando caçoavam-na com o primo e o casório.

Era mesmo uma pena, lhe digo... casar uma brasileira mimosa com um pé-de-chumbo, como aquele desgraçado daquele ilhéu? só porque ele tinha um boliche em ponto grande!...

O caso é que o Costinha gostava da moça e a moça gostava dele: tem, é que não atavam nem desatavam... e o velho Severo puxava a pêra, torcendo as ventas...

O ilhéu às vezes vinha à estância do tio, em carretinha...; veja vancê como ele era ordinário, que nem se avexava. de aparecer de carretinha, diante da moça!... E era só cama com lençóis de crivo, para o primo; fazia-se sopa de verdura para o meco; e até bacalhau aparecia, só pra ele!...

Que isto das nossas comidas, um churrasco escorrendo sangue e gordura e salmoura?uma tripa grossa assada nas brasas? uma cabeça de vaquilhona... uma paleta de ovelha; e mogango e canjica e coalhada. .. e uns beijus e umas manapanças. .. e um trago de cana e um chimarrão por cima? e para rebater tudo, umas tragadas dum baio, de naco bem cochado e forte... tudo isso, que é do bom. e do melhor, para o ilhéu não valia nem um sabugo!...

Tuuh! diabo!... Até me cuspo todo, quando me lembro daquele excomungado!...

? Vancê está se rindo e fazendo pouco?... E porque vancê não é daquele tempo? quando rompeu a independência lá na Corte do Rio de Janeiro? e depois tivemos que ir pra coxilha fazer a guerra dos Farrapos, com seu general Bento Gonçalves, que foi meu comandante, sim senhor, graças a Deus.. . e mais os outros torenas!...

Galego, naquele tempo, era gente, vancê creia! Estância, era dele; negócio, era dele; oficial, era só ele; era arrematante das sisas, ele; surgião, ele; padre-vigário, ele; e pra botar a milicada em cima dos continentistas? era ele!?

E cada presilha!...

Gente da terra não valia nada!...

? Que é que vancê está dizendo?... O que nós somos hoje a eles devemos? Qual! É verdade que uns in-ventaram plantação de trigo? isso enfim, era bom...; sempre era uma fartura; noutras casas plantavam e fiavam linho? também não era mau, isso; noutras cardavam lã... Algum mais vivaracho botava tenda e vendia mechiflarias ou prendas de ouro... Nalguns trocava-se uns quantos couros por um pão de açúcar, e pipote de cana por qualquer meia dúzia de vacas. E sempre corria alguma dobla, de salário, e algum cruzado pela peonada de ajuste.

Mas, como quera... eram mui entonados, os reinóis.

Onde é mesmo que eu estava? Ah!... O Costinha e sia Talapa tinham juramento entre eles, de se casarem, ainda que ela saísse de casa na garupa do namorado, se o carrança do velho Severo não consentisse. Com o ilhéu é que nunca!

Pois foi por estas alturas que os castelhanos bandearam a fronteira e o Costinha assanhou-se.

Foi uma despedida de arrebentar a alma! Ele deixou-lhe de lembrança uma memória e ela deu-lhe um negalho de cabelo. E combinaram que pra qualquer recado ou carta ou aviso, ela teria o nome de Melancia e ele de Coco verde. Só eles, ninguém mais saberia; que era para despistar algum xereta.

E como a despedida foi de noite, e ela veio acompanhá-lo até a porta. .. até a ramada, onde ele montou a cavalo? e como ventava forte, e a vela que um crioulo trazia apagou-se? parece que houve a roubada de uma boquinha... porque ele tocou a trotezito, calado, e ela, ficou como entecada, no mesmo lugar, calada... Quem não soubesse jurava que se despediam enfunados, quando a verdade é que se despediam chorando nos olhos mas tocando música no coração... por causa daquela bicota arreglada no escuro, mas que valeu como um clarão!... Ninguém viu? só o Reduzo.

Nessa madrugada o cadete marchou.

O velho Severo deixou passar um mês ou mais; quando teve notícia de que as forças andavam bem longe, e trançadas com o inimigo, e que ninguém de lá podia sair assim a dois tirões. . . sem falar nos balázios e nos lançaços ? que isso era a boche! ?, quando inteirou-se de tudo, mandou à Vila o capataz para vir acompanhando o sobrinho, a quem escreveu uma carta grande, fechada com mais obreias do que tragos de vinho tem um copo de missa, de padre gordo!...

Oral... daí a uns dias o ilhéu batia na estância, de carretinha e com um carregamento de cousas. E já começaram a aferventar o casamento.

Imagine vancê o cerco em que se viu a pobre da sia Talapa! Eram os pais dela; a parentalha; vizinhos velhos, cancheiros da estância... tudo a dizer, a gabar, a achar até bonito o ilhéu...

E já foram alinhavando papéis, e preparos de vestidos e doçarias, perus na engorda, leitões no chiqueiro, terneiras pros churrascos.

Uma negra que havia lhe dado de mamar era a única criatura que chorava com a moça? mas chorava escondido, a pobre, por medo do laço... De noite, fechadas no quarto as duas abraçavam-se, rezavam e só diziam, no consolo duma esperança:

? Mãe santíssima... valei-me!...

? Nossa Senhora!? manda nhô Costinha aparecer!..

Afinal chegou o dia marcado. Veio o vigário com o sancristão e gentama de toda parte; não digo bem: o velho Costa lunanco nem a família não foram convidados.

Mas assunte vancê como se passaram as cousas.

Pela Vila tinha justamente passado a meia rédea um chasque para as forças em que servia o cadete. O chasque era rapaz novo, alegre, mui relacionado por aqueles meios; enquanto mudava de cavalo tinha ido tomar um refresco no negócio do ilhéu, e aí, pela gente da casa soube a nova do casamento, do dia certo, dos preparos da jantarola, enfim, de tudo, tudo, pelo miúdo.

E mal que apertou os pelegos, montou, ? e se foi ? que o rei manda marchar, não manda chover.

Quando bateu no acampamento e entregou os ofícios que levava, procurou a rapaziada conhecida e portanto o Costinha, para dar a novidade do casório da sia Talapa com o primo.

Como touro de banhado laçado a meia espalda, assim ficou o moço. Amassou o sombreiro sobre a orelha, afivelou a espada e gritou:

? Me vou, e é já! Reduzo!

? Pronto!

? Encilha os nossos cavalos! Já! Vamos embora!... Deserto!... Hei de lonquear aquele galego ordinário!... Deserto... Deserto... acabou-se!

? Encilho? reperguntou o chiru.

? Sim, coos diabos! berrou o desesperado.

Neste momento o clarim deu toque de alarma? e como pra acoquinar o pobre um cabo veio a toda pressa chamar o Costinha, de ordem do comandante... Veja vancê que entaladela!

Pelos altos das coxilhas avistava-se uma partida do inimigo. O comandante então deu ao Costinha uma prova de confiança, pois encarregou-o de uma carga sobre um flanco dos atacantes...

E agora?!...

Filho de tigre é pintado!?

Diante do dever o moço engoliu a tristeza, e mesmo não quis se desmoralizar desertando justamente naquela hora de peleia.

Mas coriscou-lhe um pensamento... e logo montou, formou a gente, tomou a testa do piquete e disse ao Reduzo.

? Procura-me, que te preciso!...

Desembainhou a espada, deu um viva a Sua Majestade! ? e despencou-se, firme nos estribos, com o chapéu caído pra trás, sobre um ombro, preso pelo barbicacho. E a gauchada, reboleando as lanças, carregou, a gritos, fazendo tremer a terra e o ar.

O Reduzo, de pura pabulagem, atou a cola do pingo e logo riscou, escaramuçando, na culatra dos companheiros.

E foi mesmo no meio da carga, entre gritos, juras, palavrões, tiros, pontaços de espadas e coriscos de lanças, pechadas de cavalos, foi nesse berzabum do entrevero que o Costinha industriou o chiru:

? Tu, sai já; vai direito lá em casa, mas não chegues. A Talapa, depois d?amanhã, de noite, se casa, à força, com o ilhéu? Tu, mata cavalos, boleia e monta os que precisares? arrebenta-te, mas chega antes do casamento... Não digas a ninguém, nem lá em casa, que me viste, nem que sabes de mim... Mas vai ao velho Severo, mete-te lá, custe o que custar e acha jeito de dizer, que ela ouça, que o coco verde manda novas à melancia... Ela entende. Compreendes?... Eu sou o Coco Verde, ela é a Melancia... Só nós sabemos isso... e tu, agora. Vai. Tu vais adiante; logo mais eu sigo, se não morrer neste revira. Vai, Reduzo!... Coco verde... Melancia... Não esqueças... Abaixa-te!... abai!...

E enquanto o chiru se deitava no pescoço do cavalo e uma lança de três pontas escorregava-lhe por cima do espinhaço, o Costinha, com um tiro de pistola derrubava um gadelhudo lanceador? e continuava o sermão:

? Olha, não brigues? pra não perder tempo... Olha? é depois d?amanhã... Se dormires, se comeres no caminho, não chegas a tempo!... Sempre a meia rédea, Reduzo! Eu não posso desertar agora... Senão, eu ia... Vou logo? amanhã. Tu, agora!... já sabes: Coco verde manda novas a Melancia... Diz como quem não quer.. . Só ela entende? O que é preciso é que ela ouça...

? Acuda aquele, patrãozinho, que eu tempero estes!? Isso disse o chiru e esporeando o flete atirou-o contra dois desalmados que iam degolar um ferido? emborcou-os a patadas e logo gritou ao moço:

? Já sei tudo! Deus ajude! Lá le espero!...

E riscou campo fora, rumo da querência, ainda batendo na boca, num pouco caso dos castelhanos!

E bateu na marca!... Boleou e mudou cavalos alheios, pediu outros no caminho, tomou um, à força, largou os arreios porque rebentou-se-lhe o travessão e não tinha tempo para remendá-lo, mas com duas braças de sol, na tarde do casamento, veio dar no velho Severo, de em pêlo ? pelego, e freio ?, as boleadeiras na cintura, o facão atravessado no cinto, e sem mais nada; moído, entransilhado, estrompado, varado de fome, com sono, com frio, mas ainda de olho vivo e língua pronta, contando uma rodela mui deslavada.., que vinha de casa, andava campeando umas tambeiras... e uma vaca mocha, que não apareciam no gado manso, havia dois dias!...

O velho Severo pasmou...

? Uê! chiru!... Pois tu não tinhas ido com o seu Costinha?

? Eu?... Não sr., patrão! Fui só levar uns cavalos até o meio do caminho e dei volta. Diz que lá bala é como chuva? e lança, como roseta!... Não vê!... E dele mesmo, nem notícia nenhuma, té agora... Vancê dá licença de campear os alimais?

? Deixa isso pra amanhã. Hoje estamos de festa. Fica aí, pra tomares um copo de vinho e comer uns doces à saúde do noivado... Vai pra o galpão...

? Sim, senhor patrão: Deus lhe pague. Eu hei de fazer uma saúde, sim senhor...

? Pois sim, pois sim; vai!

O sorro entrou no galinheiro...

Quando apeou-se, o chiru estava de pernas duras; agüentou-se como um tigre, pra não dormir.

Daí a pouco pegaram a jantarola. O casamento ia ser de noite, depois da comida; depois, baile. Havia uns quantos cantadores, e violas; dava pra dançar a tirana, o anu e a mancada na casa-grande e no terreiro.

O Reduzo foi se fazendo de sancho rengo... e foi se encostando pra janela da sala de jantar..., e por ali foi comendo e bebendo, como soldado estradeiro, que não se aperta...

A noiva estava como um defunto: branca, esverdeada, de olhos fundos e chorando sem alívio; a negra, ama, atrás dela, muito retinta, só mexia o branco dos olhos, parecia uma alma penada, do purgatório...

O ilhéu é que estava solto!...

Parecia que tinha bicho-carpinteiro, o desgraçado!...

Só estava era meio vendido com o jeito da noiva, mas fingia não se dar por achado, o velhaco...

Um convidado levantou-se e fez uma saúde; depois outro, e outro e outro; cada um fazia o seu verso. Havia risadas, o noivo agradecia.. . a noiva chorava.

Os convidados aplaudiam; moças também botaram versos; os rapazes respondiam; foi se virando tudo numa alegria geral.

Nisto o capataz da estância chegou à porta e pediu licença pra oferecer um verso à saúde do noivado, e botou uma décima bem bonita. Outros, posteiros e agregados, também.

Nesse entrementes o velho Severo perguntou:

? Que é do Reduzo? Oh! Chiru?...

? Pronto, patrão, respondeu o caboclo.

? Então?? e a saúde prometida?

? Já vai, sim senhor!

E amontoando-se para a mesa, bem junto dos que estavam sentados, frente a frente dos noivos, olhando pra sia Talapa o chiru levantou o copo e disse:

Eu venho de lá bem longe,
Da banda do Pau Fincado:
Melancia, coco verde
Te manda muito recado!

E enquanto todos se riram e batiam palmas, enquanto o ilhéu se arreganhava numa gargalhada gostosa, e o velho Severo, mui jocoso, gritava ? gostei, chiru! outra vez! ? e enquanto se fazia uma paradita no barulho, a noiva se punha em pé como uma mola, e com uma mão grudada no braço da ama, já não chorava, tinha um cobreado no rosto e os olhos luziam como duas estrelas pretas!?

Lindaça ficou, como uma Nossa Senhora!

O Reduzo aproveitou o soflagrante e soltou outro verso:

Na polvadeira da estrada
O teu amor vem da guerra:...
Melancia desbotada!...
Coco verde está na terra!?

Amigo! Nem lhe sei contar o resto!...

A noiva atirou-se pra trás e pegou aos gritos.

A gente da mesa levantou-se toda; o mulherio correu, pra acudir...

O padre-vigário benzia pra os lados...

O ilhéu olhou para o Reduzo, viu-lhe o facão atravessado? e tomado dum mau espírito, gritou furioso e escarlate:

? Foi esse negro, com tanta arma, que estarreceu a menina!

Um que estava perto do chiru gritou-lhe na cara:

? Que desaforo é este?...

O Reduzo ? cuê-pucha! índio dente-seco! ? largou-lhe os cinco mandamentos, de em cheio!

Porém caíram-lhe em cima; foi uma desgraceira!

O ilhéu, do outro lado da mesa sampou-lhe com uma botija de bebida, que acertou bem entre o queixo e o ouvido do chiru...

Fechou o salseiro, nem se sabia bem com quem.

Nessa inferneira o Reduzo mergulhou por baixo da mesa e quando surdiu, foi para arriar o braço, dar uma volta na traíra e reiunar o ilhéu?

E antes que o picassem ? que o picavam! ? pulou por uma janela e se foi ao galpão onde montou no primeiro matungo que encontrou e abriu os panos!?

O resto é simples.

Passados dois dias chegava o Costinha, como bagual com couro na cola; e apresentou-se ao velho Severo, pedindo a mão da moça, O velho teve de desembuchar, contar o compromisso em que estava e que até havia se demorado o casamento por causa dum estropício mui bruto, que tinha havido,.. O Costinha não quis saber de nada? armou banzé...; veio a moça à fala...

Vancê imagina: rebentou o laço pra mais de quatro...

Pra não afrontar o velho Severo, o Reduzo teve de andar escondido. Tempos depois do Costinha já casado, então o chiru tomou conta dum posto; depois passou a capataz.

Era o confiança da casa.

Veja vancê que artes de namorados: Melancia? Coco-verde!?

quarta-feira, outubro 26, 2005

Revendo alguns posts descobri alguns temas recorrentes: nostalgia, uma espécie de desesperança, interferência da ambiente na conduta do indivíduo (isso de forma macro até a natureza corroboram nisto), entre outros. Escrevo isso patrícios não porque tencione criticar meus escritos, tampouco atribuir-lhes juízo de valor, já que acredito na independência dos escritos ante seu criador. Contudo, isso pode ser sintomático. Talvez minha visão de mundo não seja das mais otimistas e aqueles que me conhecem provavelmente concordem. Sem embargo, posso ser tachado de desesperançado, embora algumas réstias desse sentimento possam dizer pouco sobre mim. A verdade é que entre o realismo e o desespero existe uma linha mui tênue e é nesta corda bamba que ando. Por isso, talvez, é que pareça ser pessimista. No entanto, vez por outra sou tomado por sentimentos quase que infantis, dona Priscila que o diga. Aqueles que nos fazem rir de pequenas coisas, banais as vezes. E se não fora tais estios em meio as tormentas da vida, seria impossível a lida cá em baixo. Mas enquanto houver esperança a vida, esse potro maleva que pealamos todos os dias, tem sentido e razão de ser.
Porto Alegre, nova de outubro.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Um regalo

Paisagens Perdidas
Jayme Caetano Braun

A tarde recolhe o manto,
carqueja e caraguatá;
na corticeira um sabiá
floreia o último canto!
Alargando o gargarejo,
da sanga que se desmancha,
há um eco pedindo cancha
no primitivo falquejo!

A lua nasce num beijo,
prateando o lombo do cerro
e um grilo acorda um cincerro,
do meu retiro de andejo!

Paisagens de campo e alma
perdidas no vem e vai,
soluços do Uruguai
que bebe lua e se acalma:
a noite passa à mão salva,
com ela vem a saudade,
olfateando a claridade
das brasas da Estrela D?Alva!

Nascem rugas no semblante,
paisagens da natureza
que a força da correnteza
não pode levar por diante;
então exige que eu cante
quando me encontro desperto,
mas sempre que chego perto
meu sonho está mais distante!

Paisagens de sombra e luz,
como é que pude perdê-las?
Ficaram as 5 estrelas
fazendo o "sinal da cruz"!

Porto Alegre, nova de outubro.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Cuê pucha!!!

Patrícios, ando mais enrolado que rabo de porco! É por causa de um rablho de Crítica Literária e este desgraçado tem me tirado o sono, julgando a hora que eu posto os amigos devem imaginar que a peleia e braba. Bueno, assim que eu terminar essa empreitada me atraco a escrever de novo, No más, ando tocando cavalo.
Porto Alegre, nova de outubro.

sábado, outubro 15, 2005

Ginete

"Redomonio!", "Agora ele prancha!", "Cuê pucha! O índio paece grudado no lombilho!" Enquanto todos olhavam admirados para a mangueira Tito parecia divertir-se deveras com tudo aquilo. Desde gurizote fora ginete, ginetaço diga-se de passagem. Aquilo tudo para ele era como brincadeira, diversão. O zaino já suado, cortado de soiteira parecia desitir, naquela peleia onde um, invariavelmente, saía vencedor. Tito desmonta, acabara seu trabalho. A rédea à mão direita que se entendia para entregar a fera, agora mansa, para um dos peões. Um trago canha, alguns cumprimentos e um sentimento de dever terminado. Entre gritos e exclamações de espanto, ele se sentia distante em um lugar onde os pensamentos é que retouçavam. Nestes desvarios se via perdido de si, da sua ocupação se via mas fera do que aquela domada a pouco. Não há o que fazer quando uma idéia sotreta vem ocupar a cabeça. Quem o vise assim, perdido neste pensar bárbaro e xucro, não o reconheceria, por certo. Menos mal que já encontrava-se solito, recostado num moirão olhando para dentro de si apenas. E quando este laçasso lhe ardia nas paleta, ele o mais quebra dos tauras, sentia-se pequeno demais. Remoía lembranças de outras gineteadas onde não fora o ganhador, quando não recebera exaltação alguma por parte dos seus patrícios, somente risos e mofa. "Não sou tão buenaço como todos dizem." E uma dúvida ligeira como petiço de careira vinha incomodar, tirar-lhe o sossego. Ficava ali, duvidando da vida e das capacidades que julgava possuir. Os olhos perdidos num horizonte distante, longe de si e dos seus. Deixava ficar silente, por minutos que eram como anos e, somente, com um esforço muito maior do que empreendera minutos antes conseguia sair desse martírio, para uma garrafa de pura e um palheiro. Não sabia por quanto tempo ainda conseguiria montar. Muito menos se quando grudado no lombo de algum clinudo não seria ele a vítima. Vinham imagens de patas lhe esmagando a cabeça e aqueles que prezavam por sua vida a chorar. O que é do homem? O que é da vida? E uma lágrima teimosa salgando-lhe a fronte mostrando que um taura, na feição de um angico, pode um dia cair e não levantar.

terça-feira, outubro 04, 2005

Sobre tormenta e viveres

Não sei se os patrícios já tiveram idéias como tormenta, mas é exatamente o que tem me acontecido nos últimos tempos. Elas vêm num rompante de ventania, derrubam árvores, destelham casas e por vezes, não poucas, deixam desabrigados: nesse caso eu. Quando passa a ventania e chega a bonança só me restam escombros do que foi outrora uma idéia. Me sobra apenas, neste caso, juntar os cacos tentando identificar algo que já fora meu anteriormente. La pucha! E não pensem que é fácil, pois alguns se encontram a quilômetros de distância do lugar original e, o pior, irreconhecíveis. Pedaço cá, outro acolá num quebra-cabeça pouco prazeroso de resolver. Mas o que fazer? Afinal de contas são meus e se posso reaver algum, mesmo quebrado, vale a pena a procura. Metafórico, ou não, esse post diz bem o que estou sentindo nestes últimos tempos e se o rancho continua em pé é porque o esteio é firme.
Agradeço muito se os patrícios encontrarem por aí algum dos meus víveres, não peço que me restituam, apenas que façam bom uso, talvez melhor do que eu mesmo faria.

Porto Algre, nova de outubro.

domingo, outubro 02, 2005

Briga no Bolicho

Essa é loca de especial! Espero que gostem se quiserem ver o original está no livro "Rapa de Tacho" do Aparicio da Silva Rillo.

"Tavam uns quinze home tomando umas que outras - foi contando o gaúcho - uns mascando salame pra enganar o bucho, quando chegou o Faca Feia. O senhor sabe, o índio é mais metido que dedo em nariz de piá. Deu um planchaço de adaga no balcão e perguntou se havia home no bolicho. Todo mundo coçou as bola. Home tem bola, o senhor sabe. O Lautério - que não é flor de cheirar com pouca venta - disse que era com ele mesmo, deu de mão numa tranca e rachou a cabeça do Faca Feia. Um contraparente do Faca não gostou do brinquedo e sentou a argola do mango no Lautério. Pegou no olho - lá nele - e o Lautério saiu ganiçando como cusco que levou água fervendo pelo lombo. Um amigo do Lautério se botou no contraparente do Faca - que já tava batendo a perninha - e enfiou palmo e meio de ferro branco no sovaco do cujo, que lo chamam Pé de Sarna. Um irmão do Sarna, acho que chateado com aquilo, pegou um peso de cinco quilos da balança e achatou a cabeça do homem que faqueou o Sarna. Os óio saltaram, seu doutor. E eu só olhando, achando tudo aquilo um tempo perdido. Um primo do homem do ferro branco rebuscou um machado no galpão e golpeou o irmão do Sarna. Errou a cabeça, só conseguiu atorar o braço do vivente. Aí eu fui ficando nervoso, puxei meu berro pro mole da barriga, pronto para um quero. Meu bolicho é casa de respeito, seu delegado, e a brincadeira já tava ficando pesada. Mas Bueno, foi entonces que o Miguelão se alevantou do banco, palmeou uma carneadura, chegou por trás do homem do machado, pé que te pé, grudou ele pelas melena e degolou o vivente com um talho a coisa mais linda. O sangue jorrou longe como mijada de colhudo. Aí eu e mais uns outros - tudo home de respeito - se arrevoltemo com aquilo. Brinquedo tem hora, o senhor não acha?
- Acho sim, mas e aí? - insistiu o delegado.
- Pois, como lhe disse - prosseguiu o bolicheiro - nós se arrevoltemo. Saquemos os talher... E foi aí que começou a briga!"

Porto Alegre, nova de outubro.