domingo, dezembro 31, 2006

FELIZ ANO NOVO!!!

Bueno, patrícios não vou fazer nenhuma retrospectiva do ano, ou coisa parecida. Simplesmente, porque passou: desencilhado, o cavalo velho é largado no campo pra que passe seus últimos instantes a pastar...
Cruzei por cá somente para desejar a toda família Capando Touro a Unha, ficou bonito isso, um FELIZ ANO NOVO e, como diz o cumpadre maneador, sucesso na carreira...

Porto Alegre, nova de dazembro.

terça-feira, dezembro 19, 2006

O que ocorre no Rio Grande do Sul parece estar indicando que, atualmente, para os gaúchos, só se chega a ser nacional através do regional, ou seja, para eles só é possível ser brasileiro sendo gaúcho antes. A identidade gaúcha é atualmente resposta não mais nos termos da tradição farroupilha, mas enquanto expressão de uma distinção cultural em um país onde os meios de comunicação de massa tendem a homogeneizar a sociedade culturalmente a partir de padrões muitas vezes oriundos da zona sul do Rio de Janeiro. (Ruben Oliven, A Parte e o Todo: A Diversidade Cultural no Brasil Nação. p. 128)

domingo, dezembro 17, 2006

Embora meu sangue seja azul, não posso deixar de parabenizar os meus cumpadres colorados: Castrador e Marcador. Parabéns!

Porto Alegre, nova de dezembro.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Mas não é que o índio só precisa de um empuranzito pra começar a charlar de novo. E eu que pensei que a tigrada, como diz o nosso ilustre Maneador, tinha se bandeado deste espaço. Entonces, bamô combiná o seguinte: ustedes não reclamam mais e eu das vez em quando coloco um post. Alas fresca! Grossura pouca é bobagem!

Porto Alegre, nova de novembro.

sábado, novembro 18, 2006

A chuva miúda tomou conta de Porto Alegre nesta manhã de sábado. E achei bueno, umas quantas veiz. Depois daquela ressolana de quarta e quinta-feira, não hay índio que fique sem dizer uma meia-dúzia de impropérios. Tenho andado encerrado que nem macau pra engorda, sentadito e estudando que nem um loco, mas fazer o quê!? Por isso, é que me descuidei do Capando, mas como ninguém reclamou... entonces, patrícios é mais ou menos por aí.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Cruz del sur
Daniel Drexler

cruz del sur, ya encontré la salida
descubrí, que es tan simple la vida
no hay problema ni dolor tan importante
que no sea un punto distante
en la inmensidad
cruz del sur

cruz del sur, siempre habrá una salida
si brillás tiene un norte mi vida
no hay problema ni dolor tan agobiante
que no sea un punto distante
en la soledad
cruz del sur

Mui bueno o espetáculo que vimos ontem no Santander Cultural, Daniel Drexler... recomendo!!!

sábado, outubro 21, 2006

De Luz e Sombra

Foi quando a tarde se estendeu lenta e solita
Que o fim do dia entregou toda a sua luz
E se acendeu uma luz escassa, e seus candeeiros
Clareando o rancho, e os dois braços de uma cruz.

Ficaram inquietas e tão móveis sobras velhas
Deixando tudo num silêncio de lamentos
Que a luz da lua percorreu o rancho inteiro
Por rasgos claros, desquinchados pelos ventos.

Ficou a sombra habitando, e seus fantasmas
Qual vultos negros, nas paredes, lentamente
Se escondendo frente aos olhos assustados
De um menino, que fui eu, antigamente!

Assim por tudo a uma sobra transponível
Que só o tempo a decifra, por seus trilhos...
Por isso a cruz abriu seus braços ao menino
Feito um abraço, de uma mãe, cuidando o filho.

Então o rancho foi ganhando claridade
Que iluminou-se pela fé que nos traz calma
E explicou aos olhos claros, que um menino:
Não teme a sombra, quem tem luz dentro da alma!

Porto Alegre, nova de outubro.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Capando Touro a Unha

Aponto na mangueira
Um maleva dum potro,
Inteiro no más,
O Maneador num pronto
Puxou do laço e das maneias:
Que pialo!
Foi num upa e o crinudo já tava maneado
No chão resfolegava

Num grito de ala pucha
Saltando por riba do alambrado
Se apresenta num sapucai.
O Castrador.
Que com habilidade de cirurgião
Desfaz o colhudo
O torna cavalo.

Nem bem a sanguera estancou,
Num upa e se bamô,
Com maestria dos que dominam a lida:
O Marcador
Põe na anca do malacara
As três letras das iniciais.

É quando aponta,
Curvadito no más,
Com jujos e manhas
Chega o Curador.
Estanca a sangria
Benzendo o maula, despoes.


Miram-se os quatro:
São trança do mesmo tento
Parceros pra toda lida.
E por isso que todo o dia
Teimam tanto em pelear.

Porto Alegre, nova de outubro.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Una virtud de mi protector me fue revelada en las tranquilas pláticas de fogón. Don
Segundo era un admirable contador de cuentos, y su fama de narrador daba nuevos prestigios a su ya admirada figura. Sus relatos introdujeran un cambio radical en mi vida. Seguía yo de día siendo un paisano corajudo y levantisco, sin temores ante los riesgos del trabajo; pero la noche se poblaba ya para mí de figuras extrañas y una luz mala, una sombra o un grito me traían a la imaginación escenas de embrujados por magias negras o magias blancas.

Porto Alegre, nova de outubro.

sábado, setembro 30, 2006

Entocado em casa. Bombeando pela janela e achando que a lida não tem muita serventia as vezes. Nenhum verso novo, as músicas que oiço são as mesmas, também. Bueno, mas amanhã tem carne gorda mal-assada no rancho de Castrado e isso é macanudo. Bamo, colocar a conversa em dia e tomar uns trago, felizmente. No mais, ando tocando cavalo.

Porto Alegre, nova de setembro.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Ando escrevendo poucas coisas de próprio punho no Capando, por faltar tempo, tanto quanto vontade. Mas algumas vezes bate uma saudade de trançar um tento e cá me ponho eu a charlar um pouquito. Nos últimos dias o tempo tem corrido largo, gostaria de saber quem foi que formou esse maldito parelheiro para correr tanto assim!? Bueno, outubro já está escarciando e eu tentando puxar o freio de setembro ainda. Mas como esse malacara não é bueno de boca, vai que é um tiro. Os contos do Silva Rillo têm sido a diversão que me tenho dado, embora eles sejam meu objeto de estudo para uma comunicação em uma jornada. No mais, os cavalos é que andam a me tocar... quem mandou encilhar um desdomado!?

Porto Alegre, nova de setembro.

domingo, setembro 24, 2006

Pedro Osório 2016 - Cidade Candidata

Kledir Ramil

Só porque vai sediar o Pan, o Rio quer também organizar os Jogos Olímpicos de 2016. Não sei quem toma essas decisões, mas gostaria de apresentar uma proposta: a candidatura da cidade de Pedro Osório. Nada mais justo do que homenagear esse município que traz na sua origem o nome de Vila Olimpo. É uma cidade predestinada.

Nós, os gaúchos, somos o povo mais preparado para sediar os jogos, se levarmos em conta alguns fatores. Por exemplo, a tocha olímpica. Ninguém sabe fazer um fogo como nós. Qualquer índio velho junta umas achas de lenhas, acende um fósforo e pronto. E aí, aproveita o braseiro, enfia um naco de picanha gorda no espeto... Não há dúvida, seria uma olimpíada inesquecível.

É claro, teríamos que fazer algumas adaptações. As modalidades de esportes precisariam incorporar jogos com características mais regionais, como a Bocha, o Truco e o Jogo do Osso. O espírito olímpico do Barão de Coubertain - "o importante é competir" - teria que ser alterado para alguma coisa do tipo "não te fresqueia, bagual".

O Boxe poderia ser substituído pela Briga de Baile, mais emocionante. Só termina quando alguém abre a cabeça do outro com uma garrafa de cerveja. Nas artes marciais temos a Queda de Braço e a Guerra de Bosta. Tênis de Mesa, o tal do Ping-Pong, pra nós é jogo de criança. Já que tem diversão pra gurizada, podiam incluir também Bolinha de Gude, Pandorga e Bodoque com Caroço de Cinamomo. Arco e Flecha é barbada, é coisa de índio. A gente mexe com isso desde o tempo dos guaranis. E esse negócio de Ciclismo é passeio de bici. Vamos botar as mulheres pra disputar com eles. Agora, aquela corrida esquisita em que os homens ficam se requebrando com passos de mulherzinha, está proibida.

Natação terá Nado de Costa com Poncho em Açude, esporte para poucos. Hipismo vamos manter, o que não falta é cavalo pra Cancha Reta. Tiro ao alvo também, mirando uns maçanicos do banhado. A Esgrima vai usar adagas de verdade e não aqueles arames fininhos, sem graça. E se tocarem uma rancheira, melhor, a coisa vira Dança dos Facões.

Futebol será o de Campanha - com bota e espora - para se adaptar às condições do estádio, que durante a semana funciona como pastagem para o gado. A Ginástica Olímpica será substituída, com vantagens, por Chula e Chimarrita. E vamos promover alguns esportes até então considerados menores, como Cuspe em Distância, Peteleco e Halterocopismo.

Tudo isso sem falar da festa de abertura: som de 300 bombos legüeros, apresentação de Gisele Bündchen... E por aí vai. Vamos amadurecer a idéia. Não quero cantar vitória antes do tempo.

Porto Alegre, nova de setembro.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Apenas por retoço...

Um dia, no pampa largo,
clarins de guerra tronaram
chamando à revolução.
Pelas estâncias e vilas
caudilhos juntavam gente
pra o entrechoque iminente
jogando irmão contra irmão.

João da Gaita, o andarengo,
mesmo pouco percebendo
qual o sentido da luta
também foi na reculuta
como vaqueano da tropa.

Quando os caudilhos gritavam
pela coragem dos tebas,
nas cargas de espada e lança
os cascos da cavalhada
multiplicavam tambores
no couro tenso do chão.

Era a luta - transformando
cada local de combate
num campo-santo onde as cruzes
eram o "esse" das adagas
espetadas contra o céu.

Nos fogões de acampamento,
pelos alces dos combates,
a velha gaita se abria
num responso varonil.

E a indiada lembrando bailes,
surungos de trocar passo,
ia marcando o compasso
na coronha do fuzil.

E João da Gaita pensava
olhando as mãos nas hileiras
que aquelas manoplas largas
por tempos de paz e guerra
tinham distinta função.

Pelos combates e encontros
empunhando adaga e lança,
semeando a destruição,
e nos descansos da luta
puxando a gaita manheira
nas comunhões de alegria
das rodas de chimarrão.

La fresca, não entendia
por que sina Deus lhe dera
duas funções tão distintas
para o mesmo par de mãos.
Porque a lo largo entendia
que pelear estava errado
quando no campo da luta
justava irmão contra irmão.

- Ah, se pudesse algum dia
ver a querência irmanada
sem que faltasse nenhum
num grande baile comum
à sombra de uma ramada
E ele de gaita estirada
que nem cobra em ressolana,
compassando a meia-canha
das polcas de relação...

Lá um dia percebeu,
para o seu entendimento
de índio meio bagual,
que o que chamavam "ideal"
era apenas, bem pensando,
ambição pura de mando
dos chefões da capital.

... daqueles que concitando
a gauchada ao combate
ficavam tomando mate
peleando só por jornal...

Cuê pucha e não é que os versos são do Rillo... que dirão os ortodoxos!!!

Porto Aelgre, nova de setembro.

sábado, setembro 16, 2006

Essa é ótima...

Gaudérios fora da linha
Nem todos os integrantes do Acampamento Farroupilha seguem as rígidas normas estabelecidas pelo MTG

Espécie de prefeito do Acampamento Farroupilha, o coordenador de Nativismo da prefeitura de Porto Alegre, Nei Fagundes Machado, faz o diagnóstico: uma parcela dos tradicionalistas instalados nos piquetes no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho não observa as regras do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) quando veste os trajes gaúchos.

- Não exigimos, mas aconselhamos que os participantes respeitem as normas, porque o acampamento busca perpetuar nossas tradições - afirma.

A convite de Zero Hora, ele listou os principais pecados que observa pelas ruelas do parque. Também reuniu Maria Lucia Almeida dos Santos e Oscar Garrido, dois exemplos positivos, para apontar dicas de uso correto das indumentárias, conforme os princípios tradicionalistas.

Pecados ao vestir... qual será a próxima dos ortodoxos tradicionalistas!!!

Porto Algre, nova de setembro.

terça-feira, setembro 12, 2006

Transcrevi o texto da música "Co´as espera torta" espero que seja assim mesmo...

quando eu chegar de volta
co´as espora torta e a tropilha mansa
trago um coração de freio
pronto pros arreio dessa moça
chega de domar tormentas
sesmarias pra enfrenar
tenho quem me aqueça o mate
quem não quer que eu vá

Porto Alegre, nova de setembro.

quinta-feira, setembro 07, 2006

"Eu tinha uma vaquinha que se arrastava de pança, dava dez litros de leite e era flor de vaca mansa!" Foi esse o verso que eu larguei ontem durante a execução da música "Jogando Truco", no Solar dos Câmara. Grande apresentação - música de qualidade, com ótimos arranjos, ritmos e músicas incidentais bem usados e dissonâncias aplicadas na medida certa. Pirisca Grecco e seus três comparsas fizeram ontem algo que classifico como ímpar, como obra de arte. Desde as músicas intimistas até as mais largadas, àquelas de sapatear num bailado, todas muito bem tocadas e interpretadas. O público, com certeza, agradece. Eu, de lambuja, comprei um baita CD, Bem de Bem, que indico de oio fechado.

p.s. Visitem www.pirisca.com

Porto Alegre, cheia de setembro.

domingo, setembro 03, 2006

Eu guardo em mim uma mágoa
Que lateja sempre que vai chover
Que verte sangue nos dias de calor
Que não cicatriza
Que é cinza e rubra
E que volta a cada janeiro...

Porto Alegre, nova de setembro.

domingo, agosto 27, 2006

O Forasteiro

Vinícius Brum / Mauro Ferreira / Luiz Carlos Borges




Na sombra de um bolicho à beira estrada, daqueles que do mundo se perdeu
Encontra-se uma gente reunida, a espera de um chamado de seu Deus
Perfumes de bom fumo amarelido, paredes com suas almas penduradas
Paciências de um lugar envelhecido, e uma coragem de quem não tem nada

Apeia um forasteiro: o que é da vida responde o bolicheiro: está cansada
A gente de bombacha anda esquecida desiludida nos beirões da estrada
Buscamos nossa terra prometida um mundo pras crianças e pros velhos
O sul que nós sonhamos onde a vida devolva o que branqueou nossos cabelos

Mas cada ano a seca de janeiro, precede um novo inverno de asperezas
Parece que o destino do campeiro não pode pedir mais que pão na mesa
E aos poucos, o que diz o bolicheiro se multiplica em vozes pelo ar
E volta a se calar o forasteiro, junta o violão no peito pra cantar

Já vi quase de tudo em minha vida, a séculos que ando pela estrada
Vi a morte sobre a terra prometida, e a vida sobre a terra abandonada
Vi um homem pondo fogo na colheita, enquanto outro semeava num deserto
Já vi perto o que ontem era um sonho, e longe vi o que sempre fora certo

Um povo sonha Deus a sua imagem, e Deus devolve a terra a cada povo
Moldada no trabalho e na coragem que o povo usou pra levantar o sonho
Aqui é nosso inferno e paraíso, a vida é uma planta por cuidar
A que morrer por ela se preciso, o sul somente o sul pode salvar

Assim falou pro povo o forasteiro, depois montou e envolto num clarão
Sumiu emoldurado pela tarde, bem como o sol dissipa a serração
Uns dizem que mais altos que os cerros ele segue abençoando este rincão
Mas muitos acreditam que essa gente ouviu a voz do próprio coração

O certo é que um a um se foi às casas, por que havia uma planta por cuidar
Arar a terra a cada madrugada, para a semente que há de germinar
O homem faz seu Deus que faz o sonho, um sonho azul maior que este lugar
Na luz que vem dos olhos dessa gente, o sul um dia se iluminará

Porto Alegre, nova de agosto.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Eu até deixei as rinhas
Talvez por penalizado,
Ou talvez por espicaçado,
Que o remorso não perdoa,
Por que se a vida é tão boa.
É um banditismo da gente
Fazer de um bicho valente
Matar ou morrer à toa!!


Na rinha os puaços corriam soltos: o galo mais delgado, dono de esporas mui grandes, contava com a cara toda lanhada, enquanto seu adversário, menorzito um pouco, trazia o bico quebrado. Ninguém ousava intervir e o dinheiro corria solto... todos sabiam que, a bem da verdade, quem ganhava era o dono do rinhadeiro, mas, como diziam a maioria, era por diversão que faziam os bicho pelearem, não pelos cobres.

Bombeando de longe o bárbaro espetáculo, Onório sentia uma dor ingrata no peito. Maleva o homem que faz daqueles que consegue serviçais do seu divertimento. Não era diferente na estância, nos galpões, nas cidades... alguém sempre estaria a mercê do divertimento alheio. Será isso destino ingrato dos que não têm com quem contar!? Muitos dos que ali se encontravam serviam tanto, ou mais, a patrões muito mais cruéis, que não os obrigavam a brigar, mas a mendigar o pão, a existência. Via o Ramão aos gritos de ala pucha e pensava que a sina ingrata lhe fizera matar a própria filha, pois esta engravidara do filho do coronel. Largados no lançante, assim, os pensamentos lhe faziam concluir que, talvez, a dura sorte dos galos finos não fosse das mais injustas... O homem é um galo cego e sem puas lutando contra outro bem gordo, armado e empuado...

Nessa hora jazia morto o menorzito, lanhado e ensangüentado, enquanto os vencedores compravam mais canha com os trocos do prêmio.

Porto Alegre, nova de agosto.

sábado, agosto 19, 2006

Fragmento

Se no primeiro tiro de laço não se piala o cupinudo, entonces hay que empeçar nova lida.

Porto Alegre, nova de agosto.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Alas fresca!!!

Será que o colorado ganha!?

Porto Alegre, nova de agosto.

P.S. No mês do cachorro-loco tudo é possível!

segunda-feira, agosto 14, 2006

Ovelha não é pra mato

0 preparo da invasão de Santo Tomé não era segredo em São Borja. Além do pessoal do 14, que deveria cruzar o Uruguai à gaúcha por despiste, o Coronel Beijo andava a aliciar mais gente com promessas de recompensa. Conhecedor das situações individuais, sabia "chegar" em cada um conforme as necessidades. Com tal fim, abordou o comerciante J.A.:

- Escuta, Zequinha, sei que teu negócio não desenvolve. Por isso te proponho que tomes parte na invasão. Tu vais na segunda leva, só para fazer número, que isso impressiona e os castelhanos vão pagar por cabeça. Vai e te forra de mercadoria, que vão dar saque livre.

Zequinha pôs-se em brios. Miudinho e trêmulo, lá estava ele naquele fatídico 29 de dezembro de 1933. Cruzou o rio pensando na "venda" sortida. Porém, ao pôr pé em terra, sentiu que algo se atravessava em seus planos - a resistência dos gendarmes era maior que a esperada. Corria bala a torto e a direito! Um graduado da policia correntina varria a praça de Santo Tomé, encarapitado num telhado. Por pura "gala criolla" até tirava um trecho do "Zé Pereira" na metralhadora!

E agora?!

Zequinha se benzeu para agarrar coragem. Tirando partido de seu tamanho de pouca sombra, esgueirou-se no meio do tiroteio, chegou até a um bolichão e entrou. Atingira seu primeiro objetivo, mas as prateleiras estavam vazias! Só restara, no alto de uma delas, um belo e solitário par de botas... Num pulo, deu de mão, pô-las embaixo do braço e saiu rastejando por vielas desertas, até se por a salvo. Saltando para dentro da balsa, praguejou, fazendo figa para o chão estrangeiro:

- Não volto rico, seus bostas, mas este troféu vai provar a minha coragem!

No meio da noite, bateu em casa. Desvencilhou-se dos trajes guerreiros e acessórios de briga (um Nagant que engasgara com o medo do dono, uma língua-de-ximango com cabo de espiga e um bocozinho com vinte cartuchos), e foi provar as botas na frente da família. Caiu de queixo: havia trazido duas botas para o mesmo pé!...

Porto Alegre, nova de agosto.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Depois que encerrou a correria eu achei que ia postar como fazia antes, ledo engano. E não foi por falta de assunto, tampouco por mermarem as tentativas: solo paro na frente deste teclado, começo a digitar e não saí nada que presta. Bueno, o jeito é recobrar o velho ritmo aos pouquitos, contando uma que outra mentira e cosa-e-tal... Ando lendo "Rodeio dos Ventos" do Barbosa Lessa, muito interessante, principalmente, o primeiro capítulo. No mais, tentado encontrar algo que valha apena ser escrito. Estive em Três de Maio, mas isso eu conto melhor outro dia, por enquanto é só...

Porto Alegre, nova de agosto.

P.S. Vai ver que é a influência má do mês do cachorro-loco que tem me tirado o prumo.

quarta-feira, julho 19, 2006

Tche, quem diz que nós não fazemo fandango. Pois é, ontonte reuniu-se extraordinariamente o Capando Touro a Unha, tencionado ir assistir ao Show do César Oliveira e Rogério Mello. Bueno, acabamo se atrasando e decidimos ficar cá pelo rancho do marcador, degustando uma iguaria campeira de fundamento. Discutimos até a politica das meias do Getúlio...foi loco de especial. A foto ao ladoé só para ilustrar a cachorrada no dia dos parabenzo da senhora do marcador. Só para identificar, o gambá de copo na mão é o letrado curador. O japônes de braço cruzado é um indio loco de bueno, é o castrador. O maneador é aquele ao fundo de bege, grudado na Dna. Miriam...é o Maneador. E este indio de barbas e cuia em punho, é este que vos escreve, igual a um analfabeto, o Marcador.
Hasta.

sábado, julho 15, 2006

O Inverno

Segredou-me o vento sul que cabresteia o inverno
Cantando nas casuarinas rompendo folhas e cerne
Lãs que tenho, lenha pouca silêncios de quase um ano
Sabenças que armazenei insuficientes, bem sei
Para enfrentar o tirano

Qual general de campanha vai mandar o minuano
Virá com mil artimanhas intimidar o meu rancho
E eu silente mateando fogo de chão caprichado
No meu pala enrodilhado vou me quedar esperando

Nunca o temi, que o varal de charque era lotado
Cavalo bem amilhado vinho prá cem madrugadas
Erva mansa, quincha buena de Santa Fé, despontada
Violão para as insônias que por amargas e longas
Tinha a alma calejada

Já nem mais canto milongas temendo o embate fatal
Dá pena ver o varal sem a fartura das mantas
Não sei se ri, ou se canta o vento quando ultrapassa
Não estou chorando, senhores é o efeito da fumaça
Não estou chorando, senhores
É o efeito da fumaça

Porto Alegre, cheia de julho.

domingo, julho 09, 2006

Enfim, terminou. Redundante, mas verdadeiro. Depois de seis meses loqueando com semiótica literária e a obra do Jayme Caetano, a monografia foi entregue. Defendo-a na quarta... como diria meu amigo Maneador: "apliques mil". Assim, como prometido, volto a postar com mais assiduidade.
Por cá, ainda hay alguns atropelos por resolver.
Bueno, entonces por hoje é só.

Porto Alegre, cheia de julho.

quarta-feira, julho 05, 2006

Achei este texto no jornal de hoje, muito interessante e, por isso, resolvi compartilhar com os patrícios. No mais ando tocando cavalo... semana próxima, volto a postar com "modos de gente".

Bolinha de gude

Kledir Ramil

Na era paleolítica, quando eu era uma criança caminhando sobre a Terra e ainda não haviam inventado o Play Station, jogava-se bolinha de gude. A palavra gude vem do provençal Gode e quer dizer "pedrinha redonda, lisa". Em geral, as bolinhas de gude eram feitas de vidro transparente, com desenhos variados, uma mais bonita do que a outra.

A Bocha era uma exageradamente grande e proibida nas disputas, pois quebrava as pequenas. Assim como a Esfera de Aço, o terror dos terrenos baldios, onde eram montados os nossos campos de batalha.

Havia também bolinhas de osso, de madeira e até de cobre, mas eram raras. Com o uso, todas elas iam ficando meio lascadas. Perdiam em beleza, mas ganhavam em eficiência.

O jogo, também conhecido como Bulita, consistia basicamente em acertar, com a sua, a bolinha dos outros. A coisa podia ser "às brinca" ou "às ganha". Nesse caso, quem era acertado perdia a bolinha. Por isso, cada guri carregava um saquinho de pano, que ia enchendo ou esvaziando, conforme a destreza pessoal. Ou então o tamanho da mesada. É claro que as bolinhas compradas no armazém da esquina não tinham o mesmo valor daquelas conquistadas em campo. Cada uma dessas era um troféu, com sua história particular, nome do perdedor e algumas mentiras inventadas para valorizar ainda mais o feito.

A técnica usada para jogar era simples. Apoiava-se a bolinha entre os dedos polegar, do meio e indicador. Ou seja, o dedão, o pai de todos e o fura-bolo. Com uma leve pressão do polegar, a bolinha de vidro era arremessada em velocidade na direção do alvo, a coitada da bulita do outro. Quem não tinha muito estilo e elegância no trato do jogo usava uma técnica conhecida como cu-de- galinha. E virava motivo de gozação. Era preciso estar preparado para enfrentar a crueldade das ruas.

Lá em Pelotas, o tipo de jogo mais comum era o Imba. Um buraco cavado na areia, que funcionava como zona neutra, de onde se partia para acertar os concorrentes. O Triângulo era mais sofisticado. Desenhava-se no chão, com um pedaço de pau, um polígono de 3 lados. Em cada vértice era colocada uma bolinha. Quem conseguisse acertar e fazê-la sair para fora dos limites do desenho, levava.

Um dia, eu estava no campinho, jogando com alguns amigos. De repente, surgiu um marmanjo mais velho com cara de marginal e gritou: "Levante!". Roubou todas as bolinhas, botou no bolso e foi embora.

Foi aí que comecei a me dar conta que o mundo era injusto e que viver não ia ser fácil.

Porto Alegre, quarto-crescente de julho.

terça-feira, julho 04, 2006

Jayme Caetano...

"Cruza de um mestre-escola de origem alemã, o Prof. João Aloyzio Braum, e de uma formosa cabocla, crespa e jambo, dos Sete Povos das Missões, Dona Euclides Ramos Caetano, o poeta surgiu na região de Sepé Tiaraju e sugou no leite da infância e no churrasco da juventude, toda essa força telúrica do ancestralismo, com que pode, agora, transmudar em beleza e som e rima os motivos explorados e inexplorados da vida, da luta e do sofrimento do gaúcho.
(...)

Jayme Caetano Braun não é apenas um fazedor de versos. Tem personalidade definida. Encarna, com vigor e determinação a defesa das nossas tradições, seriamente ameaçadas por um processo degenerativo."

Porto Alegre, nova de julho.

quarta-feira, junho 28, 2006

Como eu posso andar tão entreverado com esses benditos estudos!?

Porto Alegre, nova de julho.

segunda-feira, junho 26, 2006

Velha Faca

Um palmo e pico de aço,
rude e glorioso pedaço
da espada de um general.
Cabo de prata estrangeira
- velha faca brigadeira
que nunca me deixou mal.

Nesse tempo eu era moço,
não tinha o sangue tão grosso
nem a memória tão fraca.
Índio gaudério sem marca
era maior que um monarca
quando empunhava essa faca.

Mas não era compra-briga,
desses que enchem a barriga
em bochinchos de galpão.
Mui amigo do sossego
não arriscava o pelego
em "rolos" sem precisão.

Mas quando lá volta e meia
me entreverava em peleia
por honra ou obrigação,
afrontava qualquer risco
e essa faca era um corisco
brigando na minha mão.

Sei que há quem ria disso:
- a faca tinha feitiço,
coisa botada, sei lá!
Se escapava da bainha
e ia brigar sozinha
se eu deixasse ela brigar!

Mas Dom Tempo barbaçudo
que dá sumiço em tudo,
coisa viva e coisa morta,
foi-se chegando ronceiro,
cruzou sem pressa o terreiro,
passou depois pela porta.

Quantas vezes já nem lembro,
vi enfeitar-se setembro
com as flores roxas do ipé.
Do moço de antigamente
resta este trapo de gente
que mal e mal fica em pé...

E a velha faca amigaça
me acompanhou na desgraça,
me aparceirou na miséria.
- Extraviada da bainha,
ainda lá pela cozinha
nas mãos da negra Quitéria.

Porto Alegre, cheia de junho.

E viva o frio!!!