terça-feira, novembro 30, 2004

Carancho

T... tinha a incerteza na alma daqueles que plantam e espera mui larga daqueles que colhem. Mirava a ressolana que castigava a lavoura. Um campito detrás do rancho meia dúzia de pés de milho, mas que eram muito importantes. Havia galinhas no pátio cacarejando pedindo bóia, um matungo judiado que também ganhava milho, filho e a mulher. Nem imaginava ter que pedir de novo uns cobres pro coronel. Por causa dessa sandice perdera o campo do fundo no começo do mês. O que mais lhe sangrava no peito eram os piazitos mui magros que tenteavam de bodoque as perdizes no capoeral. Essa safra o Patrão do céu vai ser bueno comigo, deve mandar a chuva para a lavoura vingar. Pura e santa ingenuidade. A chuva não veio, o campo se fez morte e não vida e um dos piazitos, por fraqueza, não cruzou o inverno brabo. Uma mágoa queixosa bateu-lhe nos alhos e a chuva que não veio nas lágrimas se mostrou. E o sal que lhe molhava o rosto, deixando a boca em fel lhe fez erguer os olhos e clamar para o céu. Que Deus olhasse para sua desgraça e mandasse ventura ou olhe dizimasse a raça.
Na madrugada campeira não foi T... que chorou mas o céu - morada das almas puras - que mandou água e esperança para este rancho de um carancho que cismava em acreditar e sonhar.
Porto Alegre, cheia de novembro.

sábado, novembro 27, 2004

A Lua que posso tocar

Quando mirei a lua redonda, não no céu, mas seu reflexo no lagoão, senti que o mundo era bueno uma barbaridade. E eu que vinha a trote, do povo para a estância, parei num repente e fique ali bobeando aquela lua mui linda que vez por outra se mexia, pelas maretiadas dos biguás. Compreendi, então, porque muitos a transformaram em deusa. Grande, redonda com aquelas manchas escuras cheias de segredos. Além do mais, és Lua, nome bonito de china que enfeitiça tanto quanto aquela do Jarau. Mas teu encanto é diferente, não é a plata que consome o índio por dentro, é o teu segredo a melodia do teu nome. Quem sabe um dia tu foste mulher, de carne e osso, que pucha! A mais bela entre as outras devias ser. Terias cabelos negros de noite, olhos mui negros, também, estes, doces e escuros como a guabijú e de pele morena... sim morena, porque a deusa dos meus sonho tem a pele morena como cuia, como terra. Eras tão bela que nosso Patrão te quis junto dele e mais, te quis como deusa, como mistérios, como um querer que não se alcança. Apeio, levo a mão para tocar o teu reflexo e o que encontro é a água fria, morta do lagoão. Que pealo, pensar que as deusas poderiam habitar entre paisanos tão rudes e tão simples. Lavo a cara e as lembranças, pé no estrivo dou uma última mirada como que num adeus e a trote largo me bandeio para a estância onde a Lua também é morena e nessa sim, posso tocar.

Porto Alegre, cheia de novembro.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Temô de Volta

Enfim a tranqüilidade! Pois é patrícios, hoje desatei a soga do gateado, lavei o lombo suado e o soltei no pasto. Quanto a mim, estendi o baxero os peleguitos e me atirei debaixo da figueira para uma buena sesteada. Foi-se a lida empeçada, ficou o cansaço e a esperança de que ela não fora em vão. No mais ando tocando cavalo. Fim de ano é sempre uma galopeada em disparada, mas já estou contando os dias pras féria, e daí, me toco pro meu interior. Gado, campo, minha Florecita pra matear nas manhãnitas do pago, isso que é vidão. De agora em diante o velho Curador volta ativa, e os que já estavam pensando em deixar de visitar o Capando por falta de peçuelo, podem ir desistindo. Bueno, patrícios por hoje é isso, to bem esgualepado e a cabeça anda pedindo traveseiro, entoces, hasta la vuelta.

Porto Alegre, crescente de novembro.

sexta-feira, novembro 19, 2004

Hemanos, loco de especial...

Como lhes disse hoje eu meu cumpadre Marcador estivemos em Viamão charlando com um pessoal loco de especial. Gente simples, mas de alma nobre. Foi por demais poder passar o pouco que sabemos para eles. Pessoas interessadas em compreender o porquê das coisas, rever valores e conceitos. Podemos tocar, conversar e aprender muito com estes hermanos. Não éramos melhores nem, tão pouco, superiores mas aprendizes. Vivências trocadas nas experiências mais singelas daqueles que muito viveram. E que têm muito para ensinar. São nestas coisas simples da gente que percebo o quanto o Patrão tem nos abençoado. Da convivência sobraram buenos regalos que, de fato, não merecemos, mas que vêm com chuva boa em meio ao estio. A estes patrícios fica o meu mais sincero muito obrigado.
Porto Alegre, crescente de novembro.

quinta-feira, novembro 18, 2004

Ainda não foi desta vez...

Bueno patrícios, ustedes devem estar sentindo falta dos posts, ainda ando abichornado por causa da prova que vou fazer na semana que vem. Contudo, dei uma cruzada pra avisá que tô vivo e intero. Amanhã eu e meu patrício Marcador vamos até Viamão dar uma palestra sobre "O Negro na Fundação Étnica do Gaúcho" além de prosiá com os índios vamos tocar alguma côsa. No mas, todo de mi flor. Aos que têm entrado na comunidade do ingurte um bienvenido e aos que ainda não entraram fica o convite.
Termino com um regalo: "Quando o pai que foi gaiteiro, desta vida se ausentou. O negro piá solitário, tal como pedra rolou. E se fez homem prosiando, com a gaita que o pai deixou.

Porto Algre, nova de novembro.

sábado, novembro 13, 2004

Explicações aos patrícios

Bueno patrícios, como ustedes já devem ter percebido número de postes do Capando tiveram uma séria queda nas últimas duas semanas. Embora, o Maneador já tenha se desculpado, este é sempre muito preocupado com nossos patrícios, resolvi também explicar o quê está acontecendo.
Empecei uma lida das mais vaqueanas e que tem exigido de mim muito esforço e tempo e por causa disto não tenho postado. Isso ainda vai durar mais umas duas semanas, se o Patrão de nossotros todos permitir, e daí a lida toma o seu rumo normal.
Mais uma coisa, agora o Capando possui uma comunidade no Orgurte querendo podem se filiar.

Porto Alegre, minguante de novembro.

quinta-feira, novembro 11, 2004

Na época em que os bichos falavam...

Quem se criou na campanha conhece os mais diferentes tipos de habitantes dos nossos capões de mato e do campo. Pois bem, vai que a muito tempo atrás esses bichos falavam e é nesta época que se situa o que quero contar.
Num grande capão de mato bem próximo a um lagoão vivia uma família de bugios. Uma família não, uma comunidade de bugios. Todos eles viviam faceiros da vida com aguada e comida farta, poucas eram as preocupações e os desentendimentos. Quem comandava essa bugiozada toda era o mais velhos dentre eles chamado: Antenor "o inflexível". Era conhecido por este epíteto por causa de suas decisões sempre firmes e arbitrárias, as quais, todos acatavam com uma confiança infantil.
A vida ia as passo tranqüilo: Antenor mandava e os outros obedeciam. Um dia depois de uma forte tormenta de inverno, os bugios responsáveis por coletar a comida encontraram algo diferente no setor norte do capão. Eram bugios, também, só que de pelagem e cara negra. Voltaram a trote largo para a comunidade e foram relatar a notícia para o inflexível Antenor, este ficou mais do que preocupado e em uma reunião de emergência com o serviço de inteligência - que de inteligência não tinha nada, pois eram um bando de paus mandandos - resolveu-se que deveriam espionar o tal grupo.
Mais do que depressa montou-se a força tarefa e rumaram para o setor norte. Ficaram muito impressionados com o que viram: a comunidade dos bugios negros já estava muito adiantada em suas construções, viam-se escolas, igreja, uma espécie de estádio sem o campo no meio e menor, as famílias pareciam muito felizes e todos conversavam entre si amigavelmente. Como não eram bons espiões foram logo descobertos e ao invés de serem atacados, foram chamados para uma charla. De primeiro estes estavam sestrosos, mas entre um mate e outro, acabaram se tornando menos arredios. E entre uma conversa e outra descobriram que estes não possuíam chefe, tampouco um líder e que a comunidade era direcionada por um conselho e as propostas aprovadas em assembléia.
Voltaram para a sua comunidade abismados com tamanhas novidade e bem no fundo sentiram uma pontinha de inveja. Ao relatarem o visto para seu líder este baixou um decreto na mesma hora: "Todos estão proibidos de ir até o setor norte e de ter qualquer contato com os bugios daquele setor". A maioria acatou sem questionar, alguns dos que haviam estado entre os bugios da outra comunidade fugiram e passaram a morar com eles. Quando soube disso Antenor promulgou leis ainda mais severas e cerceando a liberdade de seus "súditos". Uma missão de paz, neste ínterim, foi enviada pelos bugios do norte, mas nem sequer foram recebidos. Diante de tal situação o povo acabou se dividindo em duas alas: os que eram pró diálogo e os que eram partidários do Antenor. Como eram a minoria os liberais - assim foram chamados mais tarde - foram facilmente calados ou apagados.
O setor norte acabou por se tornar para alguns sinônimo do inferno e para outros uma realidade inatingível. Como um sonho bom, ou uma daquelas velhas histórias que se contam em tardes de chuva onde há felicidade e liberdade para todos.

Porto Alegre, minguante de novembro.

sábado, novembro 06, 2004

Que bicho...

A chuva mansa que molha o campo refazendo esperança. O berro do terneiro de lombo molhado ao lado da rês. E o quero-quero que se esconde sestroso n'alguma tronqueira esperando que a chuva matreira vá mermando até se acabar. Num clarão de algum relâmpago uma perdiz assustada bate asas na direção da ramada. Encostado no oitão o cusco também mira a chuva, não só mira como sente na pele seus respingos que insistem em fazê-lo passar frio. Não vê luzes no rancho e nos ouvidos atentos só o tilintar das gotas batendo no chão. Vez por outra um berro de touro ou um estrondo de relâmpago corta a quietude. A colita entre as pernas, os tremores que o assaltavam e uma queixa no olhar. Que bicho é esse chamado homem que deixa seu amigo na chuva morrendo de frio? Que bicho é esse chamado homem que faz dos amigos mais chegados distantes na hora do aperto? Que bicho que é esse chamado homem? Que bicho...

Porto Alegre, minguante de novembro.

quinta-feira, novembro 04, 2004

Chasquito

Buenas patrícios. A coisa anda braba mais vai se levando, é que por esses dias ando me ocupando com um mundo de coisas e o tempo para postar está escassiando. Mas como sei que existem leitores assíduos do Capando não poderia deixar de dar-lhes um buenas ao menos. Sobre o que tem acontecido nos últimos dias não há muitas novidades, o feriado dos mortos foi festejado por nossostros com um churrasco mui bagual no rancho do Capando. Ilustres presenças de amigos antigos e outros novos que estão se aquerenciando. O Maneador, o Marcador e eu até demos uma canjinha para os presentes tocando alguns clássicos embalados a uma ponchada de sapucais.
Patrícios faço compromisso de esta semana postar algo de serventia. No mas como diz meu patrício Maneador: "hasta la vuelta!"

Porto Alegre, cheia de novembro.

quarta-feira, novembro 03, 2004

Desbocado e sem costeio...

Não sei quanto a ustedes, mas tem mañana que yo acordado com o diabo no corpo. Dá vontade de tomar um talagaço de canha, virar o cano da bota e me sair pra escaramuça da lida pampeana. Arreglar um bueno "criollo", tracejar una cruz na estampa e me enforquilhar campo afora...
Mas tche daí, repenso em tudo o que me vem aos braços pelo Patrão Velho: esta buena vida no sagrado chão do Continente de São Pedro, o mate na roda lá do galpão com os patricios, parceiros pra toda a lida, os carinhos da percanta, mas ah...
Bueno, e bamo tocando la vida...
Porto Alegre, Dia dos Vivos e desbocados....Novembro/2004.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Vidinha que é minha

Quando se senta a porta do rancho para matear é que se achega de mansinho, os pensamentos. Sestrosos de primeiro, para depois soltarem as rédeas num galope em disparada. Enquanto o dia se vai e vêm as lembranças é que o índio taura pensa, não só na lida, mas no que é feito da vida.
A mim me gusta muito trançar lembranças e sonhos futuros. Principalmente aqueles que, por mais distantes que estejam, trago para bem pertito. Não são sonhos de riquezas, vida abastada, nem mesmo com uma estanciola sonho eu. Tenciono estar junto de minha bem-amada, um piazito, um ranchito, um cusco ovelheiro, cavalo bom... "vidinha que é minha só pro meu consumo". Se o Patrão de nosotros todos quiser me conceder tais coisas declaro-me o qüera mais satisfeito destas paragens. Pois como disse mui sabiamente Jesus, o Cristo: "Pra que juntar tesouros onde a ferrugem e a traça destroem!?", quero é guardar aquilo que vale de verdade. Que homem algum pode tirar e que por faceiro, no campo grande do céu vou continuar a mirar.

Porto Alegre, cheia de outubro.

terça-feira, outubro 26, 2004

Por um abraço

Gujo Teixeira

Deu saudade minha linda, deu saudade!
Pra dizer bem a verdade foi assim...
Era tarde e o meu rancho por solito
te encontro nessa lembrança junto a mim.

Repontou saudades doces, feito um beijo
No destino mais amargo que ela tem
Quem me dera, esse mate em outra tarde
Tomar um, e alcançar outro para alguém.

Só depois que desencilho e o dia acalma
Nas quietudes costumeiras da querência
Nos teus olhos cor de noite e domingueiros
Me transporto e conto os dias desta ausência.

Mês passado, minha linda, tu bem sabes
O temporal encheu o passo da cruzada
E o gateado que não sabe o que é saudade
Por cismado, não cruzou o vau da estrada.

Eu aqui, entre os mates faço uns versos
Desses largos pra enganar a solidão
Por que a alma tem razões desconhecidas
Que nos fazem ser por vezes solidão.

Quem sabe o tempo, soberano das esperas
Fim do mês, não abra o céu e eu cruze o passo
Pra matear, um fim de tarde no teu rancho
E trocar ausências sim!! Por um abraço!!



Porto Alegre, crescente de outubro.

domingo, outubro 24, 2004

"Na madrugada alta e tranqüila, engrinaldada de estrelas, um homem a cavalo alcançava os arredores de Boa Ventura. O chacre rio repousava, soturno. Um frescor perfumado alertava os sentidos. O cavaleiro cuidava as sombras do caminho. No peito cerrado pela bronquite asmática que o torturava, abrigava ainda outra aflição, que crescia à medida que se aproximava de casa. Aquela cena e aquele estado de animo repetiam-se pela terceira vez. Ele não temia a cadeia, temia a vergonha de ser preso por roubo. Mas caiporismo, a desocupação, as exigências do sustento da família, a idade e a doença, sim, também a doença arrastaram-no àquilo: a roubar!"

Quem vive de changa não pode estar satisfeito com a sua dura sorte. Quem empeça um sonho e dá com os burros n'água sofre um suplício. E quem vive uma desilusão, não pode sonhar, nem experimentar aquilo que chamamos de esperança. Sem sonhos e esperança o taura vira bicho e o bicho vive de instinto.

Porto Alegre, crescente de outubro.

sexta-feira, outubro 22, 2004

Encambichado com a lida....

Buena vida, já dizia o Lambari, mas que buena vida...
Pues que indiada, estamos encambichado novamente. Tenemos que pensar enquanto mateamos acolherado nos umbrais da casa. Um gaucho sem a percanta..mas tche, que desgraça! O fato é que o Patrão Velho cuida dos seus, e fez o minuano assobiar nos ouvidos campeiros, e logo nos fazemos auditar pela melodia daquela voz meiga e serena...
A mis amores, já dizia Dom Marenco, o pingo, a china e o pago...
Bueno que existas, Dna.Camila...Que o Patrão Velho providencie o ranchito pra que possamos nos acholherar....
Porto Alegre, Outubro de 2004.

quinta-feira, outubro 21, 2004

Saudades

O friosito destes dias me tem feito lembrar do inverno. Das coisas boas que só podemos fazer nesta estação do ano. No entanto, há quem diga que não gosta do frio, pois eu aprecio umas quantas "veiz". A madruga ainda escura, enrigelada, a cerração, a geada, um fogo de chão, o mate recém cevado, puchero... É claro que eu não descarto as dificuldades enfrentadas no inverno, mas, para mim, se comparadas com a dos dias quentes não são nada. Só que, o friosito que aí está se vai de vereda e fica para nosotros as saudades do inverno. E as saudades patrícios são como estações no ano, ora vem quente e suarentas, ora frias e enrigeladas. Só quem não tem saudades não sabe disso e não falo somente da saudade passional. Com o verão a saudade da primavera chega somada a do inverno, e a do outono e todo o ano se repetem as vezes sanadas, outras cultivadas mas sempre há uma saudade. Assim como sempre acabam as estações do ano. e tu patrício podes pensar que melhor seria então que não atentássemos para as estações afim de não sentir saudades. Discordo e explico: se vivemos plenamente cada estação a saudades que sentiremos dela será embalada por boas e singelas lembranças, do contrário a única coisa que teremos será a mais triste das inquietações: Ah! Se tivesse feito tal côsa!

Porto Alegre, crescente de outubro.

terça-feira, outubro 19, 2004

O bolicho do livro...

Indiada macanuda,
tamô abrindo mais um canto do galpão pra charlar sobre das coisas da terra! Lançamo o blog Taipa Livresca que é uma produção do Capando Touro a Unha by Marcador. Se quiseres escever una payada, una cantiga ou até das uns trancaços nos homenageados aparece por lá...
O endereço é http://taipalivresca.blogspot.com
Provincia de São Pedro, Outubro de 2004.

Pealando tropa...

Buenas cumpadre tamo aí de novo,
Las emociones no grosso da "pel", todo dia enfrenando um mate bagual, enquanto na tábua do pescoço bamô aguentando o trancaço da lida...
Os gritos campeiros do Patrão em meio a gadaria, o criollo troteando como se fosse da cavalaria farroupilha, e chão estremece enquanto as patas do zaino arrebentam a terra, e os patricios Castrador, Curador e Maneador, vão apartando as vacas dos terneiros. Bueno...a lida continua...
o dia recém nasceu no poente, e se bamô de á cavalo que o mango grudado no cabo da faca tá coçando pra arrebentar a pau...
Á carga, indiada, viva a república rio-grandense, viva a liberdade...
Provincia de São Pedro do Rio Grande do Sul, Outubro de 2004.

E o gaúcho...

"O que eu vinha enxergando desde tempito largo (...) era que nós todos, os pobres da campanha, ia acabá emangueirados, como capão pra consumo. E sabem onde? Aqui mesmo, na aldeia, neste cisco."
(Cyro Martins, Porteira Fechada p. 40)
O trecho foi extraído de um romance, mas a realidade não é diferente do relatado. O campo transformou-se, e muito. Hoje tratores, motos e colhedeiras fazem o que faziam homens, cavalos e peães. Contudo, o que mudou no campo não foram realmente as tecnologias e técnicas de produção. Na verdade a mudança aconteceu há muito tempo. Não foram as máquinas que tiraram o homem do campo, foi a ganância de uns em detrimento a liberdade de outros. Durante longos anos o gaúcho sentiu-se livre e senhor de si mesmo. Quando o patrão botou cerca e casa grande na campanha e a sua liberdade se tornou ainda mais virtual. E quando se precisou de mais espaço para o gado quem saiu não foi o patrão, é claro. Apinharam-se no povo, embretados nas vilas e changueando alguns trocados. Assim foi, assim é e assim será. E a liberdade!? Esta é cada vez menor, cada vez mais distante e cada vez mais virtual. E o gaúcho!? Bem, o gaúcho...

Porto Alegre, nova de outubro.

sábado, outubro 16, 2004

Amigos

Amigos, amigos, amigos cada amigos a mais é uma saudade a menos.
Eu ouvi isso em algum lugar não me lembro bem onde foi, sei somente que é uma grande verdade. Tenho provado com os meus patrícios grandes gauchadas que são meu orgulho nesta existência. Não é só a prosa amiga, mas os momentos de silêncio em que, o que sabemos um do outro valem mais que mil palavras. E nessa convivência mateaça seguimos, um amadrinhando o outros na ventura e nas desventuras, certos de que nunca seremos deixados de lado por esses que temos um grande apreço. Estender a mão e prosiar é nossa filosofia, não julgando, apenas fazendo nossas as dores do amigo, as paixões dos amigos e as amarguras dos amigos. Retribuindo cada elogio e chorando junto em qualquer mágoa. E se empeça alguma peleia somos os primeiros a terceiar o ferro por causa de nossos patrícios.
Ao Patrão de nossotros todos agradeço pelos meus patrícios e pela vida que me é mui buena.

Porto Alegre, nova de outubro.

quinta-feira, outubro 14, 2004

A Estância, o Piá e a Percanta...

Ontem ao chegar descogonado da lida, me atirei nos pelegos e adormeci com as idéias mergulhadas em preocupações. De vereda, passei ao sonho que creio ser coisa do Patrão Velho. Estava na estância, atirado na varanda da casa, quando vinha a trotezito bem compassado um guri, de pés descalços, bombachas remangadas e sem camisa, com uma tez branca e olhos verdes, loiro como o sol que refulge e com um sorriso matreiro, ao tapear com graça e carinho, as fuças do cusco que vinha pealando e acoando nos seus garrões. Vinha se aproximando de mim e gritando: "Pai, pai, olha como pula o gavião".... De certo era este o nome do cusco. Mas o sonho só fez completo, depois que ouvi a melodia daquela voz meiga e serena aos meus ouvidos, chegando como uma cantilena por detrás dos umbrais das casa: "Oi, cheguei"... Era ela, minha D.Caetana, a Sra. da estância que estava lá pras bandas de Pelotas, pois afinal ela é uma percanta douta e tem o hábito de ensiná os outros índios a pensar, e por isso tem que muito viajar. "Senta aqui pertinho, minha prenda, o amargo já tá vindo e logo, logo o almoço tá na mesa. - Josefa, põe mais um prato que a Dona da Casa chegou.." Saltou a negrinha, loca de facera, dizendo:"Tá bueno patrão, é pra já" Minha prenda, cabelos ruivos e tez branca como a do piá, sentou-se ao meu lado e se atracamo a charla das novidades de sua viagem e estada em Pelotas....Depois disso acordei, com uma sede de camelo e botei um milongão, pra iniciar a lida...
Porto Alegre, 14 de Outubro de 2004

Esperança

Bueno, depois de um jejum de alguns dias sem escrever, confesso que senti falta. Escrever é um exercício muito interessante para aqueles que têm o hábito. Mas para hoje nada de conto, onde a personagem principal sempre acaba em desgraça - aliás se eu fosse inventava até de fazê analise - vou voltar ao meu velho estilo, aquele que olha para dentro.
Tenho nos últimos dias pensado bastante sobre o futuro, principalmente o meu futuro e o de minha Florecita. E mesmo sendo translúcido o horizonte que miro conservo a esperança, não aquela sega que torna os homens visionários, mas a sadia que consegue, mesmo sem ter os pés no chão, sentir segurança. É como o guri que pela vez primeira arruma os avios de pesca e sai faceiro já pensando na volta, nos peixes, nos causos para os amigos. Ou que tateia no horizonte estrelas sonhando com um mundo encantado. A esperança é de muitas formas, de muitas cores e sentidos contudo, é uma em intensidade de espera: cautelosa e sorridente. Aos que desesperançados vivem sugiro um esforço, principalmente agora quando a pampa renasce, olhe na volta contemple a criança, o nascer do sol, a lua... quem sabe ela brote dentro do teu peito deixando raízes no coração.
Porto Alegre, nova de outubro.

quarta-feira, outubro 13, 2004

"E a melodia de tua voz, meiga e serena...."

Pra falar das prendas yo soy bueno unas quantas vezes....
Uma pergunta pertinente seria o que é do xirú pampeano quando retorna de uma tropeada e não encontra a guaina amada e santinha, limpando os peçuelos no costado do ranchito?
E quando a guria é campeira, uma barbaridade, e acompanha o taludo de à cavalo pelas invernadas...
Mas tche, felizes são Dom Tiago e Régis, por que já acharam duas flores do rincão véio bagual. E yo e Dom Josué, estamos campereando solito, por enquanto.... Mas gurias se preparem que tamôs chegando, porque em matéria de mulher bonita nós somo que nem alpargata, servimo tanto para um pé como pro outro....Mas tche...
Quebra-costela....

segunda-feira, outubro 11, 2004

Buenos Dias


Buenas indiada nossa primeira postagem no tal do blogi.
Pra começar os apresentamento, yo soy o marcador.
Diretamente da capital de todos os gauchos para o interior mais bagual e campeiro, tamo chegando para marcar a ferro as paletas de qualquer tubiano que se enveredava defronte os óio. Enfim, chegamô pra se instalar...bueno tamô mais facero que mosca em tampa de xarope...
Muchas gracias

sexta-feira, outubro 08, 2004

"Maria enche a caneca de leite "proquê" o carreteiro de meio-dia tava salgado." Maria foi até o balde de leite, tirado pela manhã da vaca salina que dava uns bons dez litros. Alcançou a caneta loçada para Nicácio que num gole tomou-a toda. "a la pucha que a sede não mermou". Deu um olhada na volta e rumou para o catre: "pode ser que despois da sesteada o mal-estar diminua". Maria as voltas com a frangaiada, remoía a desfeita que Nicácio lhe fizera na noite passada. "Precisava chegar borracho!? Precisava ter me batido!? Por acaso sou china de regimento!?" e o milho triturado ia bater no chão enquanto Maria pensava as galinhas e galos comiam e cacarejavam.
Nicácio ainda dormia quanto Maria fez a trouxa, roupa mesmo não tinha apenas alguns trapos que o Nicácio lhe dera, e sem bombear para trás seguiu pelo trilho que ia dar no lajeado. Caminhando sentiu-se tão distante de seu rancho, como se estivesse a léguas dali, nem uma lembrança mais restara daquele lugar... ilusão, pura e simples ilusão. De repente o que vem a sua mente são seus dezesseis anos quando Nicácio fora buscá-la na casa de seu pai, depois os filhos o aborto... Lembranças, e a cada passo a frente parecia que voltava dois para trás. Só voltou a si quando pisou na água fria do lajeado.
Nicácio acordou suado, esgualepado por causa da borracheira, lavou o rosto e no pátio foi entrar Maria que dava comida para as galinhas e os galos que cacarejavam.

Porto Alegre, minguante de outubro.

quinta-feira, outubro 07, 2004

Matutando

De volta à capital a maioria das coisas tornaram a sua rotina, esta já condenada por mim a algum tempo. Pois bem, não empecei este a fim de escrever sobre ela novamente. Na verdade quando liguei o computador tinha uma idéia, bem diversa da que tenho agora ou da que tive a um segundo atrás. Essa é a grande tarefa de quem escreve algo: transformar em frases e orações todo aquilo que pensa. E nem sempre o que pensamos é concebível em forma escrita, ora por incapacidade, ora por pudor.
A tarefa torna-se mais árdua quando se escreve sobre coisas que se gosta muito. Pois temos a tendência de idealizar o que gostamos, e não poderia ser diferente quando escrevo este post ou outro qualquer que já tenha escrito. Na verdade este são reflexos do que imagino ser a realidade, que não é nem real nem i-real, apenas única e especial para mim. Comunica apenas na minha existência pois, é concebida a partir de mim. Não quero que pensem, patrícios, que estou sendo buliçoso apenas falo que experiências são únicas para cada indivíduo, e comunicativas e perceptíveis de forma única também. Bueno, mas essa não era a intenção deste post... o pior é quem nem me lembro do que ia escrever por primeiro. Sendo assim, me despeço ainda procurando o que queria escrever antes de começar, quem sabe amanhã saí.

Porto Alegre, minguante de outubro.

terça-feira, outubro 05, 2004

Barreiro

Enquanto o barreiro colocava o pouco de barro que tinha no bico junto do resto que já havia colocado, sua companheira ia até a sanga beber água e se refrescar. Puxa-barro-coloca-barro, puxa-barro-coloca-barro, puxa-barro-coloca-barro... E assim, no final da primavera, estava pronto o ranchinho daqueles dois apaixonados. Sem dúvida estavam faceiro cheios de esperança e sonhos. Tudo estava como um dia claro, como primavera na campanha. Depois da casa pronta vieram os filhotes e veio também o trabalho para alimentá-los. Tudo seguia ao passo tranqüilo do trote manso da sanga.
Mas a paz se foi e a tristeza veio tomar conta daquele ranchinho e o barreiro não mais cantava soluçando solito. Sua prenda numa noite em que saíra para caçar minhocas, fora levada por uma coruja e os filhotes sozinhos acabaram por cair do ninho e não tiveram sorte diferente da mãe.
Sem família, sem a amada, sem os filhos. Ficou parado a mirar o ranchinho, e a lua bem cheia no céu parecia com ele chorar bem mansinho. E a vida, que tinha lhe dado um pealo, deixara-lhe tristonho sem ter rumo, nem norte. Apenas a dura sorte de ser solito e gaudério.
Porto Alegre, cheia de outubro.

sábado, outubro 02, 2004

Eleições 2004

Estou em Três de Maio desde sexta e aqui não poderia ser diferente dos outros lugares. Carros de som, troca de acusações, aquelas músicas de campanha que são horríveis... e eu que vim para cá em busca de silêncio e tranqüilidade. Não sou contra processos democráticos e eleitorais, contudo sou a favor do equilíbrio em todas as coisas. Tchê, exatamente agora cruzaram três carros de som, de diferentes partidos, todos com o som lacrado e eu que não tenho nada a ver com a pendega tenho que ficar escutando.
Patrícios, desta vez o descanso foi pouco e o pior é a crise de renite que me pealo. No mais amanhã me largo para Giruá, rever a família, e no mesmo dia a noite me mando de volta para POA. Eu que tencionava por minutos de sossego e tranqüidade dei com os burros n'agua. Quem sabe a,anhã cedito eu ouça pelo menos o cantar dos galos, sem que, um vote eu Fulano atrapalhe.
PS: Não fiz nenhum comentário de cunho político pois faz parte das normas para o bom funcionamento do blog.
Três de Maio, cheia de outubro.

quarta-feira, setembro 29, 2004

Chuva Miúda

Primeira noite de lua cheia e a chuva empeçou para não parar tão cedo. Noite boa para pescar, namorar e caçar tatu. Mas para aqueles que não podem abrir mão de nenhuma dessas opções é uma noite mui buena para ler um livro ou simplesmente dormir. Friosito, o compasso marcado pelo gotejar miúdo da chuva... e o sono vem pra pealar. Pena é que não dá para se ouvir somente o barulho da chuva, dos grilos, dos sapitos. É pena que esses aviões insistam em passar fazendo essa barulheira, e os carros tenham que buzinar. Se não fosse assim, muito mais bela seria esta noite. Bela como uma milonguita assobiada de manso ao pé do fogo de chão.
É patrícios teimo em ser nostálgico, principalmente nestes dias de garoa miúda. Quem sabe um dia devolta ao meu interior sinta completa essa alegria que anseio. E nas noites de chuva sinta o cheiro do campo molhado por ela. Enquanto isso meus olhos é que molham, de saudade, meu interior.

Porto Alegre, lua cheia de setembro.

terça-feira, setembro 28, 2004

Prece Sinuela

Ao Deus Menino faço uma prece sinuela
Pedindo que repontes amadrinhando
Os gaúchos do meu estado
Pra que o olhar do piazito tenha mais esperança
E a madre que segue com as crias na ilharga
Possa olhá-los e ver futuro certo
Que o peão no campo cuidando do gado
Possa sentir-se ajudado na lida bruta do dia
Certos que não foram largados a la cria nos fundões do meu estado
Peço menino Jesus que transformes do meu peito, rancho tapera
Em bela morada pra ti habitar
Que meus dias prolongues junto de ti
Pra que eu viva guri de novo a brincar
Correndo contigo nas asas do bem-te-vi
E durma sorrindo, por certo sonhando
Menino Jesus
Com um mundo tão lindo e tão puro que
Enquanto durmo não queira acordar.

Porto Alegre, crescente de setembro.

sábado, setembro 25, 2004

É companheiro a vida anda braba!

Tardezita, sabiás e bem-te-vis pulam de galho em galho cantado faceiros. Na porta do rancho, sentado na soleira um gaúcho, bombacha remangada traz numa mão a cuia na outra um palheiro. É o fim de mais um dia de lida. Sobre a face ainda tem o sal do suor que se mistura vez por outra ao amargo do mate. Se estica para alcançar a cambona e servir mais um amargo e num pequeno assobio chama para perto o cusco ovelheiro, amigo e confidente. O cusco se vem manhoso, orelhas baixas e cola erguida, se senta aos pés do qüera e fica a lhe olhar. "É companheiro a vida anda braba" foi só o que disse. Mas o cusco conhecia bem aquele jeito de dizer sentido e murchou ainda mais as orelhas. E o céu que em matizes colorados dava lugar para a noite, parecia simplesmente ser um reflexo dos olhos daquele que, sentado, teima em sentir saudades. E o mate já frio e lavado deixava na boca um gosto de angústia. Deitou a cuia no pé da cambona, calçou as alpargatas e se foi para o rumo do lajeado. Tencionava que lavando o suor do dia lavaria sua alma e a água que correia entre suas mãos levaria para longe essa angústia matreira. No costado do lajeado tirou as alpargatas, a camisa e remangou as bombachas. Já se ia longe o sol e o último rubor escassiara, ficara ele e o cusco sob a lua clara que vinha repontada pela boieira. Deixou-se ficar por um tempo ouvindo o murmúrio da sanga, que num compasso marcado cantava serena para ele escutar. O cusco sestroso olhou bem no seus olhos e devarito foi se chegando para junto da sanga querendo a sede matar. E o silêncio infinito embalado pela aguada e os grilos, seguia insistindo que era preciso pensar. Desistiu do seu primeiro plano e despido se atirou na sanga com gana, queria lavar a alma, os pensamentos...
Bem cedo Nicácio cruzando no passo bombeou um cusco sentadito do lado de um corpo nu, que o mirava sentido como dizendo: "é companheiro a vida anda braba!".